sexta-feira, 11 de julho de 2014

Defeitos estruturais existem, mas comissão técnica também merece ser responsabilizada por vexame da Seleção

Parreira e Felipão depositaram confiança exagerada no grupo
Quando o árbitro apitou o fim da histórica goleada por 7 a 1 da Alemanha sobre o Brasil, Luiz Felipe Scolari partiu em direção ao campo e gesticulou, assumindo a responsabilidade pelo vexame que acabara de acontecer no gramado do Mineirão. Horas depois, na coletiva de imprensa, o técnico reconheceu que teve culpa na derrota, a maior dos 100 anos de existência da Seleção Brasileira. "Quem é o responsável quando a equipe se apresenta? Quem é colocado como técnico? Quem é o responsável pelas escolhas? Sou eu.", declarou Felipão.

É inegável que os problemas vão muito além das quatro linhas. Antes mesmo desse massacre alemão já sabíamos que há vários pontos da estrutura interna do futebol brasileiro a serem discutidos e corrigidos. A derrota incontestável do Santos para o Barcelona por 4 a 0, em 2011, já havia sido um sinal de que é preciso renovar a cúpula do nosso futebol, formada em sua imensa maioria por dirigentes que estão no poder há anos. Porém, difícil acreditar em uma grande mudança sabendo que Marco Polo Del Nero, atual vice-presidente da CBF, assumirá a presidência da entidade em abril de 2015. E o pior: José Maria Marin, atual presidente da Confederação, será seu vice. Ou seja, mudam-se de lugar as peças do quebra-cabeça, mas elas são sempre as mesmas.

No entanto, esses fatos não isentam Scolari e sua comissão técnica de culpa na decepcionante campanha brasileira. Desde que assumiu, em novembro de 2012, o treinador do penta teve tempo suficiente para formar um time coeso com as boas peças que tinha à disposição. Não foi o que aconteceu. No Mundial, em raríssimos momentos vimos o Brasil jogar como equipe. Tanto que, das cinco partidas antes da eliminação, em duas (Croácia e Camarões) a Seleção dependeu do talento individual de Neymar, em uma (Chile) das defesas de Júlio César e em outra (Colômbia) da bola parada nos dois gols. Algumas falhas táticas, inclusive, já haviam aparecido na Copa das Confederações, mas acabaram "ofuscadas" pela boa atuação diante da Espanha na final.

Para piorar, nos momentos mais complicados, outro importante problema veio à tona: o desequilíbrio emocional. E, nesse quesito, Felipão e o coordenador técnico Carlos Alberto Parreira erraram na dose. Logo em sua primeira coletiva pela Seleção, Scolari já adiantou: o Brasil tem a obrigação de ser campeão em casa. Um ano depois, em outubro de 2013, o treinador reforçou essa ideia. Em maio deste ano, quando o grupo estava concentrado na Granja Comary, Parreira também entrou na onda: "Brasil já tem uma mão na taça". Afirmar isso com tanta propriedade soa até como arrogância em uma época em que o futebol é tão equilibrado e quando temos gerações tão ou até mais talentosas que a brasileira, como a própria Alemanha de Joachim Löw.

Com declarações como essa, ao invés de aumentar a confiança dos jogadores, a comissão técnica acabou colocando sobre o grupo uma pressão que muitos atletas não estavam preparados para suportar. E isso é totalmente compreensível para uma Seleção que, no setor ofensivo, tem como protagonistas dois jovens muito talentosos, mas de apenas 22 anos - Oscar e Neymar. Alguns podem lembrar que Ronaldinho Gaúcho foi titular com essa mesma idade na campanha do pentacampeonato, em 2002. A diferença é que, naquela época, o meia tinha ao seu lado os consagrados Rivaldo e Ronaldo. A obrigação de resolver as partidas era dos dois, e não do jovem do PSG. Foi nesse cenário que Ronaldinho também se tornou peça fundamental daquele time.

Contexto era outro quando Ronaldinho Gaúcho foi decisivo em 2002
Outras atitudes de Felipão e Parreira durante a Copa dividem opiniões. Uma delas é a reunião que a comissão técnica convocou com seis jornalistas após as oitavas-de-final. Óbvio que é direito do treinador analisar outros pontos-de-vista. Entretanto, tal medida naquele momento passou a impressão de que Scolari não tinha plena convicção do que estava fazendo. Querendo ou não, essa insegurança é transmitida para o grupo, ainda mais porque o técnico, nessa mesma reunião, revelou estar arrependido de ter levado um dos 23 convocados. Como fica o lado psicológico do atleta sabendo que esse jogador pode ser ele? Além disso, pedir o apoio da imprensa àquela altura não faria o time render mais dentro de campo. A prioridade de Felipão deveria ter sido outra.

Erros pontuais como esses precisam ser mencionados para que não se repitam com o sucessor de Scolari na Seleção. Porém, como já disse, é importante ter consciência de que os problemas do futebol brasileiro extrapolam as quatro linhas. Calendário apertado, gramados ruins, baixa média de público nos torneios nacionais. Tudo isso precisa ser revisto. Na última década, a Alemanha passou por várias mudanças em seu futebol. Elas resultaram em um torneio nacional que se tornou referência de organização para todo o planeta, a Bundesliga, e em uma seleção preparada para ser campeã do mundo. Falei sobre isso aqui no blog quando Bayern de Munique e Borussia Dortmund, dois clubes alemães, decidiram a Champions League na temporada 2012/2013.

Também é importante ressaltar que, apesar da vexatória eliminação, esse grupo não é ruim. Aliás, eu discordo de quem diz que a atual safra brasileira não é boa. Alguns jogadores já beiram ou irão beirar os 30 anos em 2018, mas ainda têm condições de serem aproveitados na sequência do trabalho, casos de Thiago Silva (29 anos), David Luiz (27), Marcelo (26), Ramires (27) e Hernanes (28), além dos jovens Oscar (22), Bernard (21) e Neymar (22). Uma base com ótimos atletas o futuro treinador terá. A missão agora não é renovar a Seleção como fez Dunga em 2010, e sim fazer com que essas "engrenagens" funcionem em conjunto. Algo que Felipão não conseguiu. Por isso, merece ser responsabilizado pelo que aconteceu no inesquecível 8 de julho de 2014. 

No vídeo abaixo, confira o momento em que Carlos Alberto Parreira afirma que o Brasil "já tinha uma mão na taça". Confiança da comissão técnica no elenco era grande antes mesmo de a Seleção entrar em campo.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Fluminense não pode ser único alvo de críticas pelo rebaixamento da Portuguesa. CBF também tem sua parcela de culpa

Escalação irregular de Héverton custou rebaixamento da Lusa
O Brasileirão de 2013 terminou no final de semana do dia 8, com a disputa da 38ª e última rodada. Na teoria, pois na prática a competição ainda está em andamento. Não nos gramados, como nos acostumamos e queríamos ver, mas nos tribunais. Nesta segunda-feira, foi realizado o julgamento do "caso Héverton", que acabou com a punição e o consequente rebaixamento da Portuguesa à segunda divisão. Julgamento que, aliás, se assemelhou bastante a uma peleja do Campeonato Brasileiro, com transmissão ao vivo de emissoras de televisão e torcedores entoando cantos do lado de fora. Só que, dessa vez, o protagonismo coube aos "engravatados", e não aos jogadores.

Para quem ainda não entendeu o caso, a Lusa foi punida com a perda de quatro pontos por ter escalado o meia Héverton no jogo contra o Grêmio, pela última rodada do torneio. O atleta entrou somente aos 32 minutos do segundo tempo e em nada interferiu no empate em 0 a 0, mas não poderia estar em campo. Isso porque Héverton foi expulso no duelo com o Bahia, pela 36ª rodada. Como de costume, cumpriu suspensão automática na rodada seguinte, contra a Ponte Preta, e depois foi a julgamento, onde acabou pegando mais um jogo de gancho. Essa punição deveria ter sido cumprida no embate com os gremistas, o que não aconteceu. Com isso, a Portuguesa perdeu quatro pontos e foi parar na zona de rebaixamento, "salvando" o Fluminense da segundona.

Várias questões podem ser discutidas em toda essa história. Na minha visão, uma delas é a pena imposta pelo regulamento, a meu ver exagerada. A Portuguesa, por exemplo, perdeu quatro pontos pela infração cometida: os três da pontuação máxima que poderia ter conquistado no duelo com o Grêmio, além do ponto obtido pelo empate em 0 a 0. Já não estaria de bom tamanho a Lusa ser punida apenas com a perda do ponto ganho na partida, sobretudo por ter ficado evidente que não houve má fé nenhuma e que o clube não quis se beneficiar da presença de Héverton? Afinal, o jogador é reserva e não ficou nem 20 minutos em campo. Dessa forma, a Portuguesa voltaria aos 47 pontos, terminaria em 14º e permaneceria na série A. A confusão, portanto, seria muito menor.

Também chamou a minha atenção a reação de alguns torcedores do Fluminense após o julgamento, que por enquanto mantém a equipe na primeira divisão. Centenas deles se aglomeraram do lado de fora da sede do Superior Tribunal de Justiça Desportiva, o STJD, e comemoraram a permanência do time na elite com entusiasmo. Óbvio que cada um tem o direito de agir da maneira que achar melhor. Eu, que naturalmente também tenho o meu time, optaria por simplesmente ficar em silêncio. Aliás, me colocando no lugar de um torcedor do clube carioca, neste momento não estaria nem um pouco feliz com toda essa situação, muito menos à vontade para vibrar com a decisão do tribunal. Certamente vários tricolores também pensam assim.

O resultado de tudo isso foram várias críticas ao Fluminense e a seus torcedores, acusados de mais uma vez se beneficiarem do chamado "tapetão". Porém, a reflexão que prefiro fazer do caso é sobre algo que novamente ficou explícito: a completa incapacidade da Confederação Brasileira de Futebol de organizar o torneio nacional e evitar que a competição terminasse dessa maneira. Vale lembrar que a Portuguesa só escalou Héverton contra o Grêmio pois o advogado que representou o clube no julgamento do meia, no dia 6 de dezembro, teria dito em contato telefônico que a punição havia sido de apenas um jogo. Como o jogador já não havia atuado diante da Ponte Preta, no dia 1º de dezembro, não haveria problema em enfrentar os gremistas na última rodada.

O erro começa quando o julgamento de um jogador expulso no dia 24 de novembro, data do confronto entre Bahia e Portuguesa, é marcado para 6 de dezembro, quase duas semanas depois do fato. E o pior: na sexta-feira. Técnicos preparam esquemas de jogo durante a semana sem saber se poderão ou não contar com o atleta que passará pelo tribunal na sexta. Outra falha absurda de organização - se é que existe - é o clube depender exclusivamente de uma ligação para o advogado para saber se poderá ou não escalar o "julgado" na partida seguinte. Até porque, nesse caso, ele não está a trabalho apenas para a Lusa. No julgamento do dia 6, o advogado Oswaldo Sestário Filho defendeu outros cinco clubes. E se todos ligassem para ele na sexta-feira à noite?

A CBF até divulga em seu site oficial os resultados dos julgamentos. Mas, acreditem, somente na segunda-feira, quando a rodada já terminou. Confiram na imagem abaixo:

Resultados de julgamentos na sexta-feira são publicados dias depois

Sentença de Héverton foi divulgada um dia após a última rodada

Como não há expediente na Confederação aos finais de semana, cabe ao clube fazer esse contato, quando seria mais simples uma rápida consulta ao site da entidade após o julgamento. Não isento a Portuguesa de culpa pelo erro, mas é inegável que a CBF poderia facilitar o trabalho das agremiações. Em seu blog, o jornalista Mauro Cézar Pereira explicou o funcionamento do sistema de punição do futebol inglês. Na Terra da Rainha, a expulsão direta acarreta suspensão de três partidas, prontamente oficializada no site da FA. Foi o que aconteceu com o volante brasileiro Paulinho, do Tottenham, no último final de semana. O ex-corintiano recebeu cartão vermelho por falta dura em Luis Suárez e já sabe que não poderá atuar pelos Spurs nos próximos três jogos.

Aqueles que acompanham o futebol brasileiro, torcem, vão ao estádio e gastam com seu clube de coração têm todo o direito de se revoltar com o que aconteceu, assim como eu me revoltei. É compreensível também a indignação contra o Fluminense, que, embora tenha se beneficiado daquilo que estava escrito no regulamento previamente aceito por todos, mais uma vez não disputará a segunda divisão após ter sido rebaixado em campo. Entretanto, é preciso direcionar as críticas para aqueles que, de alguma forma, têm enorme contribuição em tudo isso, no caso a CBF, como já fez o zagueiro Paulo André ao se posicionar sobre a punição à Portuguesa. Assim, quem sabe, nos próximos anos falaremos somente daquilo por que somos apaixonados: bola rolando.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Camisa 10 e sensação do Liverpool, brasileiro Philipe Coutinho merece ser observado com atenção na Europa

Coutinho é um dos principais brasileiros do futebol europeu
A pausa de fim de ano do nosso futebol nos faz olhar com ainda mais atenção para os gramados europeus. Afinal, em algumas competições do Velho Continente, a bola não para de rolar nesse período de festas. E quem acompanhou a rodada desse final de semana das principais ligas europeias pôde ver jogadores brasileiros se destacando com boas atuações. Na Espanha, por exemplo, Neymar novamente foi o protagonista do Barcelona, dessa vez marcando os dois gols da vitória catalã por 2 a 1 sobre o Villarreal. Já na Inglaterra, o volante Fernandinho também foi às redes duas vezes e ajudou o Manchester City a golear o Arsenal por 6 a 3.

Porém, outro atleta brasileiro merece ser lembrado pelo que jogou no fim de semana. Embora não tenha feito gols como seus compatriotas, Philipe Coutinho foi peça importante do Liverpool na histórica goleada sobre o Tottenham, fora de casa, por 5 a 0, resultado que deixou os Reds na segunda posição do Campeonato Inglês a apenas dois pontos do líder Arsenal. Com as ausências do ídolo Steven Gerrard, que só deve retornar de lesão em janeiro, e do atacante Daniel Sturridge, também machucado, o camisa 10 precisou dividir com os companheiros a responsabilidade de servir Luis Suárez, o craque do time. E ele não decepcionou. Além de ter participado da jogada do segundo gol, Coutinho criou boas chances e ainda chutou uma bola no travessão do goleiro Lloris.

As boas exibições de Coutinho no Liverpool, no entanto, não são novidade. Contratado no início do ano por cerca de 8,5 milhões de libras, o meia se adaptou rapidamente ao futebol inglês e foi um dos destaques da Premier League no primeiro semestre, terminando a competição com números expressivos para um jovem recém-chegado: três gols e cinco assistências em 13 partidas. O ótimo desempenho transformou o brasileiro em esperança da torcida vermelha para a atual temporada. Entretanto, em setembro, ele sofreu uma lesão no ombro direito, passou por cirurgia e só voltou a atuar no começo de novembro, no clássico com o Arsenal. De lá até aqui, Coutinho marcou no dérbi contra o Everton, além de ter feito bons jogos diante de Fulham, Norwich e West Ham.

Para quem não se lembra, Philipe Coutinho, hoje com 21 anos, chegou ainda criança ao Vasco da Gama. Promovido à equipe principal em 2009, ano em que participou da campanha da série B, disputou o Brasileirão em 2010. Em julho desse mesmo ano, foi contratado pela Inter de Milão, que vivia um período de transição após o título da Champions com José Mourinho. Coutinho até recebeu algumas oportunidades nos nerazzurri, mas, para ganhar experiência, acabou emprestado a um clube menor, o Espanyol, rival do Barcelona na Catalunha. O brasileiro ficou na equipe espanhola entre janeiro e julho. Nesse período, jogou 16 partidas, nas quais marcou cinco gols. Retornou à Inter para disputar mais meia temporada, e em janeiro deste ano transferiu-se para o Liverpool.

As passagens por Itália e Espanha certamente foram benéficas ao ex-vascaíno, que na Inglaterra vive o melhor momento de sua carreira. A adaptação ao clube foi tão repentina que ele rapidamente caiu nas graças dos Reds. Para se ter uma ideia, em junho, o Liverpool anunciou a lista dos jogadores que mais vendiam camisas personalizadas, e a número 10 de Coutinho era a preferida dos fãs, superando na época, inclusive, a 7 de Suárez e a 8 de Gerrard. E a admiração não parte somente dos torcedores. Em entrevista recente, o técnico Brendan Rodgers reconheceu o talento do meia e disse que frequentemente relata a Luiz Felipe Scolari o desempenho do atleta no dia-a-dia. O próprio Coutinho já admitiu que ainda sonha com a Copa do Mundo de 2014.

Em menos de um ano, brasileiro já virou "mania" entre torcedores do Liverpool
Apesar disso, acho precoce falar em Philipe Coutinho para a Copa do ano que vem e até considero improvável sua convocação, embora uma vaga no meio-campo da seleção ainda esteja "disponível". Coutinho tem uma vasta experiência pelas seleções de base, com títulos sul-americanos e, em 2011, a conquista do Mundial sub-20, mas na equipe principal só teve uma chance, em outubro de 2010, contra o Irã, ainda com Mano Menezes. Talvez Felipão até pensasse em chamá-lo para alguns testes após a Copa das Confederações, mas a lesão no ombro pode ter minado as pretensões do técnico. O tempo agora é curto. Vale lembrar que o Brasil realizará apenas mais um amistoso, contra a África do Sul, antes da convocação final, marcada para 7 de maio.

Convocado ou não para a Copa, o meia será uma boa opção para o treinador que der sequência ao trabalho de Scolari após o Mundial no Brasil. E, mais importante, o brasileiro aparece também como esperança de dias melhores para o Liverpool. O tradicional clube da cidade dos Beatles é detentor de cinco títulos da Champions e o segundo maior campeão da Inglaterra, mas não levanta o título inglês desde 1990, além de ter ficado de fora das últimas três edições da Liga dos Campeões. A atual temporada tem sido diferente, e, com os gols do uruguaio Luis Suárez, a equipe retoma aos poucos o seu espaço. Cabe agora ao time se manter entre os primeiros colocados. E o dono da camisa 10 pode ser essencial para recolocar o Liverpool em seu devido lugar.

No vídeo abaixo, confira os principais lances de Philipe Coutinho em sua primeira temporada no futebol inglês. As boas atuações do brasileiro fizeram com que ele caísse rapidamente nas graças da torcida do Liverpool.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Na véspera de decisão alemã na Champions League, atacante Cacau fala sobre força e organização da Bundesliga

Dortmund ou Bayern: um deles será o novo campeão europeu
Neste sábado, as atenções do mundo da bola estarão totalmente voltadas para Londres. Borussia Dortmund e Bayern de Munique decidirão no histórico Estádio de Wembley o título da Liga dos Campeões 2012/2013. Vários fatores dão a esse jogo um sabor muito especial. Um deles é a maneira como os finalistas passaram pelos gigantes Real Madrid e Barcelona nas semifinais. É inegável que o fato de terem vencido os espanhóis de forma tão incontestável e evitado pelo segundo ano consecutivo o esperado confronto entre catalães e merengues engrandece ainda mais o feito de aurinegros e bávaros.

Mas o principal motivo de tamanha expectativa para a partida é, sem dúvida, o encontro entre dois times de um mesmo país em plena decisão, algo que não acontece com tanta frequência. Desde que a Champions passou a admitir mais de uma equipe de cada nação, na temporada 1997/1998 - vale lembrar que, antes disso, apenas os campeões nacionais tinham vaga na competição -, essa "final caseira" aconteceu somente em três ocasiões. Em 2000, o Real Madrid levou a melhor em cima do Valencia e conquistou seu oitavo título europeu. Três anos depois, em 2003, o Milan superou a rival Juventus e ficou com a taça. Na edição de 2008 foi a vez de o Manchester United vencer o Chelsea e faturar a "orelhuda", como é conhecido o troféu do torneio.

O duelo entre Bayern e Dortmund, porém, não será apenas mais um número para essa estatística. A decisão de sábado vai muito além disso e representa a força de um futebol que hoje já é referência de organização para o mundo todo, inclusive para o Brasil. Para falar sobre isso, fiz uma entrevista com o atacante Cacau, do Stuttgart, que talvez seja um dos jogadores brasileiros que melhor entendam do assunto. Cacau nasceu em Santo André e deu os seus primeiros passos como jogador em Mogi das Cruzes, mas construiu praticamente toda a carreira na Alemanha, onde está desde 1999. Por conta dessa relação com o futebol de lá, naturalizou-se alemão e chegou a defender a seleção do país na Copa do Mundo de 2010, na qual marcou um gol.

Cacau comemora gol contra a Austrália no Mundial da África do Sul
O poder da Bundeliga tem ligação direta com a maneira como os dirigentes lidam com as finanças. Passado um período negro, quando alguns clubes - inclusive o Borussia Dortmund - beiraram a falência, hoje o futebol alemão vive um ótimo momento econômico. Na temporada 2011/2012, o certame nacional movimentou 2,08 bilhões de euros, o que corresponde a um aumento de 7,2% em relação à temporada anterior. "A Bundesliga é uma liga muito sólida financeiramente. Os clubes trabalham com consciência, tentando não gastar mais do que recebem", analisou Cacau. E o que ele diz tem fundamento. Ainda referente à última temporada, um dado chama a atenção: 14 dos 18 clubes da primeira divisão tiveram um balanço positivo, ou seja, mais faturaram do que gastaram.

Se dentro de campo as coisas correm bem, nas arquibancadas as torcidas também fazem a sua parte. O Campeonato Alemão é, com folga, a liga de melhor média de público do mundo. De acordo com estudo da Pluri Consultoria, a temporada 2011/2012 da Bundesliga teve média de aproximadamente 45 mil torcedores nos estádios. A título de comparação, a média do Brasileirão de 2012 foi de 12.983, marca que até a segunda divisão da Alemanha consegue superar: 17.212. E os números de alguns clubes alemães chegam a impressionar, como é o caso do Borussia Dortmund, equipe com a maior média de público do planeta. Na última temporada, os aurinegros tiveram média de 80.552, sendo que a capacidade do Signal Iduna Park é de 80.720 lugares.

Torcida do Dortmund praticamente não deixa lugares vagos em jogos do time
Das nove equipes que completam a lista das 10 com as melhores médias, quatro são alemãs, incluindo o Stuttgart de Cacau, que é o oitavo. Um ponto que explica em parte esse "fenômeno" é o fato de os clubes da Bundesliga optarem por ingressos a baixo custo. A arrecadação com a renda acaba sendo menor do que poderia, mas é compensada com o que os torcedores consomem dentro do estádio durante a partida com alimentação e produtos oficiais do time. O atacante ainda acrescenta alguns fatores. "Os novos estádios (construídos para a Copa do Mundo de 2006, realizada na Alemanha), a segurança e a atratividade são questões que colaboram para isso. Muitas famílias vão aos jogos com seus filhos, e isso se deve a toda a infraestrutura oferecida".

E aqui é importante ressaltar que, apesar de toda essa comodidade que têm nos estádios, os torcedores alemães não deixam de cumprir a sua principal função, que é a de empurrar o time durante os 90 minutos, ou seja, ser definitivamente "um jogador a mais". Confira como é a atmosfera em um jogo do Stuttgart:



E essa força do futebol alemão tem reflexos na seleção nacional. A Alemanha parece cada vez mais próxima de dar um fim ao jejum de 24 sem ganhar a Copa do Mundo, competição da qual é tricampeã. No Mundial de 2010, com um elenco formado totalmente por jogadores da Bundesliga, o Nationalelf apresentou, a meu ver, o melhor futebol do torneio. Os alemães aplicaram goleadas históricas, como 4 a 1 em cima da Inglaterra e 4 a 0 na Argentina de Messi, mas parou nas semifinais, quando perdeu por 1 a 0 para a Espanha. Cacau, que sonha em jogar a Copa em seu país de origem, vê a seleção com condições de ir além em 2014. "A Alemanha está bem focada nesta Copa. Creio que vai chegar bem preparada ao Brasil e com chances reais de conquista".

Mesmo já vivendo uma situação tão boa, a tendência é que as coisas melhorem ainda mais na Bundesliga. E um indicativo dessa evolução é a chegada do técnico multicampeão Pep Guardiola ao Bayern, o que o atacante do Stuttgart enxerga com bons olhos. "Com certeza sua presença irá aumentar credibilidade e a visibilidade da liga. Com isso, acredito também que grandes jogadores serão atraídos pelo futebol alemão". Certo é que esses craques já têm vários motivos para adicionarem a liga alemã aos seus currículos, e a tão aguardada decisão de sábado só os reforça. Para essa final, aliás, Cacau já tem o seu palpite. "As duas equipes fizeram um excelente trabalho nos últimos anos e agora colhem os frutos. Mas penso que o Bayern tem mais chances de título".

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Felipão abre mão de atletas experientes e acostumados a "jogos grandes". Com isso, aumenta a pressão sobre Neymar

Ramires, uma das principais ausências da convocação
Luiz Felipe Scolari convocou na última terça-feira a seleção brasileira para a disputa da Copa das Confederações, em junho. Ao todo, foram chamados 23 jogadores, que se apresentam no dia 27 de maio para o início da preparação. Na lista, algumas questões merecem ser destacadas. Uma delas é a grande quantidade de atletas que atuam no Brasil: 11, quatro a mais em relação à convocação de Dunga para o mesmo torneio em 2009 e sete em comparação com o grupo de 2005, comandado por Carlos Alberto Parreira. Esse é mais um indício do fortalecimento do mercado brasileiro nos últimos anos.

Outro ponto que chamou a minha atenção foi a média de idade. Esse elenco de Felipão tem uma média de 26 anos, que em 2014 será de 27 se os convocados para a Copa do Mundo forem os mesmos. Os números mostram que a seleção rejuvenesceu se comparada com a do Mundial de 2010, com média de 28,6 anos. E tal mudança é compreensível, já que alguns "medalhões" cederam espaço a talentos como Lucas, Oscar e Neymar. Ao mesmo tempo, dá para dizer que esse grupo não é tão jovem como muitos acreditam. Para se ter uma ideia, o Brasil foi a apenas quatro Copas com média de idade superior a 27: 1962, 1994, 2006 e 2010. Sem falar que a convocação de Scolari conta com 14 atletas acima de 25 anos, e quatro têm 30 ou mais.

Mas é preciso analisar o outro lado da moeda. Embora não seja uma seleção tão nova, vale ressaltar que, entre os 23 convocados, apenas Júlio César, Thiago Silva, Daniel Alves e Fred já disputaram uma Copa do Mundo. Além disso, o time de Felipão conta com um protagonista muito jovem: Neymar. Por ser tecnicamente o atleta diferenciado dessa equipe, é normal que grande parte da pressão pelos resultados caia sobre o santista. É dele que o torcedor brasileiro sempre vai esperar um lance decisivo, principalmente nos momentos complicados de uma partida. O problema é que Neymar terá somente 22 anos em junho do ano que vem, muito pouco para lidar com a quase obrigação de evitar um novo "Maracanaço" e conduzir o Brasil ao esperado título em casa.

E é até pela idade e por nunca ter atuado na Europa que Neymar, a meu ver, ainda está pouco acostumado aos "jogos grandes", cuja repercussão ultrapassa os limites da América do Sul, como será no Mundial do Brasil. Reconheço que o santista já participou de duelos importantes por aqui, como os clássicos e a decisão da Libertadores de 2011. Mas essas não são pelejas que o planeta inteiro acompanha e nas quais a pressão naturalmente é maior. Neymar talvez tenha sentido isso somente naquela goleada de 4 a 0 para o Barcelona, em 2011. Se a seleção disputasse, as Eliminatórias até poderiam dar um pouco de rodagem a ele, sobretudo os jogos contra a Argentina. Amistosos contra seleções tradicionais ajudam, mas não têm o peso de uma competição.

Por esse motivo não concordei com as ausências de Ramires e Ronaldinho. Os dois seriam úteis não só do ponto de vista técnico, mas principalmente para dividir a responsabilidade com Neymar, já que estão habituados com jogos de grande apelo. Ramires, por exemplo, chegou ao Chelsea em 2010, e desde então já disputou várias partidas de repercussão mundial, chegando a marcar gols decisivos. Foi assim na final da FA Cup, contra o Liverpool, e nas semifinais da Champions diante do Barcelona, em pleno Camp Nou, ambos em 2012. Essa experiência em jogos desse tipo pode fazer a diferença em 2014, que será um ano de muita pressão sobre o time brasileiro. Por isso acredito que Kaká também tenha espaço, embora não jogue com frequência no Real Madrid.

As razões que levaram Felipão a não convocar Ramires e Ronaldinho ainda não são claras. Fala-se muito que questões disciplinares interferiram na escolha do técnico, o que, na minha visão, é um erro. Atualmente, a seleção não pode se dar ao luxo de recusar jogadores desse nível. Tive a mesma opinião quando Mano Menezes deixou de fora de várias convocações o lateral-esquerdo Marcelo, que hoje é absoluto na posição. Também é possível cogitar a hipótese de uma "repreensão momentânea" e de o treinador recolocar os dois no grupo até a Copa do Mundo. Para mim seria uma decisão correta, mas nesse caso o técnico já teria perdido a melhor chance de dar uma cara à equipe com que deseja contar no Mundial de 2014, que é a Copa das Confederações.

Apenas como curiosidade, a minha convocação seria a seguinte:

Goleiros: Júlio César (Queens Park Rangers-ING), Diego Cavalieri (Fluminense) e Diego Alves (Valencia-ESP)

Defensores: Thiago Silva (PSG-FRA), David Luiz (Chelsea-ING), Dante (Bayern-ALE), Réver (Atlético Mineiro), Daniel Alves (Barcelona-ESP), Rafael (Manchester United-ING), Marcelo (Real Madrid-ESP) e Adriano (Barcelona-ESP)

Meio-campistas: Ralf (Corinthians), Fernando (Grêmio), Paulinho (Corinthians), Ramires (Chelsea-ING), Hernanes (Lazio-ITA), Ronaldinho (Atlético Mineiro), Kaká (Real Madrid-ESP), Oscar (Chelsea-ING) e Lucas (PSG-FRA)

Atacantes: Neymar (Santos), Alexandre Pato (Corinthians) e Fred (Fluminense)

No vídeo abaixo, relembre como foi o decisivo gol de Ramires contra o Barcelona nas semifinais da Champions 2011/2012. Experiência do ex-cruzeirense em jogos como esse pode ser fundamental para uma seleção com um protagonista tão jovem.



Fonte de pesquisa: Trivela.com.br

domingo, 17 de março de 2013

Milan e Arsenal ofereceram resistência surpreendente, mas não podem se contentar com "façanhas" como essas

O francês Niang, de 18 anos, desperdiçou chance crucial
Em dezembro, logo depois do sorteio das oitavas-de-final, escrevi que Milan e Arsenal provavelmente pagariam caro por terem se classificado na segunda posição de seus grupos na Liga dos Campeões. A liderança era bastante acessível para ambos, mas os dois não aproveitaram e foram obrigados a encarar o primeiro colocado de uma outra chave no mata-mata. Nesta semana, as expectativas se confirmaram, e rossoneri e Gunners deram adeus à competição: na terça, o Milan perdeu para o Barcelona, enquanto um dia depois foi a vez de o Arsenal cair diante do Bayern de Munique.

Resultados finais à parte, vale destacar a dificuldade, de certo modo surpreendente, que Milan e Arsenal ofereceram aos rivais, hoje sem dúvida nenhuma superiores. A equipe italiana conseguiu algo improvável ao vencer o primeiro jogo em San Siro: 2 a 0. O resultado fez com que muitos, inclusive eu, acreditassem em uma eliminação dos catalães antes das quartas-de-final, o que não acontece desde 2007. Afinal, um único gol do Milan na partida da volta obrigaria o Barcelona a fazer quatro. O francês M'Baye Niang até teve a chance de marcar na etapa inicial e encaminhar a classificação milanista, mas chutou na trave. Do outro lado, Messi e seus companheiros, que ainda formam o melhor time do mundo, não desperdiçaram as oportunidades e venceram por 4 a 0.

Com o Arsenal aconteceu o contrário, pois o time londrino perdeu a primeira partida por 3 a 1 em seu estádio. Natural que, depois de um revés como esse, a maioria das pessoas esperasse um passeio do Bayern no jogo da volta, na Alemanha. A equipe inglesa, no entanto, se aproveitou de uma atuação ruim e incomum dos bávaros para aplicar um 2 a 0, com direito a pressão nos últimos minutos, em pleno Allianz Arena. A vitória não foi suficiente para o Arsenal, que perdeu no critério dos gols fora, mas os Gunners certamente saíram de Munique de cabeça erguida, já que tinham feito frente a um adversário muito forte: o Bayern é o virtual campeão da Bundesliga com 22 vitórias em 26 partidas e já abriu nada menos do que 20 pontos para o vice-líder Borussia Dortmund.

Porém, contentar-se com "façanhas" como essas é pouco, especialmente no caso do Milan, que tem enorme tradição no torneio - o clube já faturou a Liga dos Campeões sete vezes, duas a menos que o Real Madrid, o mais vitorioso. O fato é que, mesmo tendo vencido o Barcelona de maneira heroica em um dos jogos, os rossoneri não prosseguiram e mais uma vez abandonaram precocemente a competição. É importante lembrar que após 2007, ano em que foi campeão, o Milan não voltou a fazer uma grande campanha continental. O melhor desempenho na Champions desde o último título foi na temporada passada, quando perdeu justamente para o Barça nas quartas-de-final. De 2007 até aqui foram outras três participações e três eliminações nas oitavas.

Sobre o sorteio das quartas-de-final, realizado na sexta-feira, é possível apontar favoritos na maioria dos confrontos, embora a confirmação nem sempre ocorra na prática. O Málaga vem fazendo história em sua primeira participação na Champions e foi o responsável, aliás, por ter deixado o Milan na segunda colocação do grupo C. Entretanto, é azarão no duelo com o Borussia Dortmund, de campanha espetacular e invicto juntamente com a Juventus. Já Real Madrid x Galatasaray tem vários atrativos, como o reencontro de José Mourinho com seus ex-comandados Wesley Sneijder e Didier Drogba, além do duelo entre os artilheiros Burak Yilmaz e Cristiano Ronaldo, cada um com oito gols, mas é o jogo em que a balança mais pende para um dos lados: o dos espanhóis.

Os outros dois jogos reúnem quatro líderes de seus campeonatos locais, três deles já com o título encaminhado. O Barcelona, soberano no Espanhol, encara o PSG, que briga com Lyon e Olympique pela taça na França. Mas o fato de ainda dividir atenções com a Ligue One nem é o maior problema para a equipe parisiense, e sim a possibilidade de no primeiro jogo não contar com Zlatan Ibrahimovic, suspenso por duas partidas após expulsão na ida das oitavas com o Valencia - a diretoria do PSG irá recorrer da decisão. Bayern x Juventus é, na teoria, o embate mais equilibrado da fase. Não fosse a irreconhecível exibição na derrota por 2 a 0 para o Arsenal, talvez os bávaros entrassem com mais favoritismo, que no momento é pequeno a favor dos atuais vice-campeões.

Confira os duelos das quartas-de-final:

Málaga x Borussia Dortmund (ida em Málaga e volta em Dortmund)
Real Madrid x Galatasaray (ida em Madri e volta em Istambul)
PSG x Barcelona (ida em Paris e volta em Barcelona)
Bayern x Juventus (ida em Munique e volta em Turim)

Já eliminados, últimos brilhos de Arsenal e Milan na Champions aconteceram há algum tempo. Os Gunners chegaram à final em 2006, quando perderam para o Barcelona (primeiro vídeo), e o Milan conquistou o heptacampeonato sobre o Liverpool em 2007, ainda com Kaká (segundo vídeo).



sábado, 26 de janeiro de 2013

Campeonatos estaduais ainda são prejudiciais a muitas equipes. Atlético-PR optou por caminho mais inteligente

Atlético-PR, de Ricardo Drubscky, "driblou" o estadual
Começaram no último final de semana alguns dos principais campeonatos estaduais do Brasil. Eles serão disputados até o dia 19 de maio, isto é, ocuparão longos quatro meses do calendário do futebol nacional. Diante desse cenário, naturalmente voltam à tona aqueles questionamentos antigos e ignorados pela maioria dos dirigentes brasileiros: o que essas competições acrescentam? Não é hora de promover mudanças? A meu ver, é inegável que a duração desses torneios está longe de ser equivalente à sua importância nos dias de hoje, especialmente para os clubes que já têm muitos deles em seus currículos.

Do ponto de vista técnico, vencer um estadual nem é uma missão tão árdua para os times grandes, que evidentemente estão vários degraus acima dos demais adversários. Porém, para conquistar o título, é preciso enfrentar uma quantidade de partidas desproporcional à relevância desses campeonatos. No Paraná, são necessários 24 jogos para levantar a taça. Nos estaduais de Pernambuco, Rio Grande do Sul e São Paulo, é possível um time alcançar a marca das 23 pelejas na caminhada até o caneco. Bahia, Goiás e Santa Catarina não ficam muito atrás: equipes desses estados podem entrar em campo até 22 vezes. No Rio de Janeiro, o máximo é 21. Quem se destaca positivamente nesse quesito é Minas Gerais, onde o campeão faz somente 15 partidas.

A principal consequência desses números é a sobrecarga provocada nas equipes. O São Paulo, que em 2013 disputará Campeonato Paulista, Brasileirão, Sul-Americana, Recopa, Copa Suruga, Libertadores e, se for campeão, o Mundial de Clubes, pode fazer 90 partidas oficiais neste ano, algo em torno de um compromisso a cada quatro dias. E o grande problema é que não há tempo de se preparar adequadamente para "maratonas" como essa: somente 38 dias separaram o último jogo de 2012, a final da Sul-Americana com o Tigre, do duelo com o Mirassol, pela estreia no Paulistão. A título de comparação, o intervalo entre as temporadas 2011/2012 e 2012/2013 na Inglaterra foi de 91 dias. Os dados acima foram levantados pelo blog do jornalista Mauro Cezar Pereira.

Na maioria dos estaduais, uma mudança de formato é suficiente para aliviar essa situação. No Paulistão,  somente após as exageradas 19 rodadas da primeira fase é que são definidos os oito classificados. Por que não alterar essa forma de disputa? Não defendo a diminuição da quantidade de clubes de menor expressão, até porque acho legal ver o interior se mobilizando para receber os grandes. Portanto, eu recorreria à formação de quatro grupos com cinco times (entre eles um clube grande), que se enfrentariam em turno e returno em oito rodadas. Depois disso, os dois melhores da chave avançariam ao mata-mata. Seria viável até fazer as quartas e as semifinais em ida e volta, o que hoje não acontece. Nesse formato, os finalistas teriam 15, e não 23 jogos até a decisão.

Reduzir o número de partidas de uma competição, no entanto, envolve uma série de fatores, e um deles diz respeito às transmissões de televisão. Hoje em dia, para terem o direito de exibir os jogos, emissoras pagam uma fortuna aos grandes clubes, que já se veem reféns desse dinheiro e, assim, não podem ir de encontro aos interesses da TV. Para exemplificar essa "dependência", tomo como referência o Corinthians, agremiação mais rica do Brasil atualmente. Um relatório referente ao balanço de 2011 aponta que as cinco principais fontes de receita - TV, negociação de atletas, patrocínios, departamento social e arrecadação em jogos - renderam aos corintianos R$ 275,8 milhões. Desse valor, nada menos que R$ 112,5 milhões - ou 40,7% - vieram da televisão.

Enquanto isso, treinadores buscam alternativas mais úteis do que os estaduais. O Atlético Paranaense enviou seu time principal para a Espanha, onde participará de um torneio amistoso com outros sete clubes do leste europeu. Assim, além de não precisar interromper sua preparação para disputar o campeonato estadual - quem defenderá o rubro-negro no início é a equipe sub-23 -, o Atlético promoverá a sua marca em território internacional. Esse é, aliás, outro ponto importante. Os clubes brasileiros deixam de fazer excursões à Europa por conta dos compromissos por aqui, vários deles desnecessários. Se nada mudar, ou perderão os estaduais, que verão cada vez mais times reservas em campo, ou as equipes, se não perceberem que podem inovar como o Furacão.

Cada vez mais fracos e desinteressantes, os campeonatos estaduais de todo o Brasil oferecem pouquíssimos atrativos para quem os acompanha. Em São Paulo, um deles é Neymar, que protagonizou lances sensacionais na vitória do Santos por 3 a 0 sobre o Botafogo de Ribeirão Preto.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Eleição de Messi foi merecida, mas outros quesitos da premiação dos melhores do mundo podem ser contestados

Bicampeão alemão, Klopp não figurou entre os finalistas
Como disse no último texto, nesta segunda-feira, Lionel Messi foi eleito o melhor jogador do mundo pela quarta vez consecutiva. Embora o argentino não tenha faturado tantos títulos quanto nos anos anteriores, considerei a vitória merecida, dados os números individuais espetaculares que o camisa 10 atingiu. Mas, a meu ver, essa mesma justiça não existiu em alguns outros quesitos da premiação, como na seleção dos três melhores treinadores, no "time ideal" e no gol mais bonito de 2012.

Primeiramente, é importante esclarecer como ocorre essa eleição. Nas escolhas dos melhores jogadores e treinadores, tanto do masculino quanto do feminino, têm direito a voto os capitães e técnicos das seleções nacionais, além de jornalistas escolhidos pela própria FIFA. Representaram o Brasil, por exemplo, Mano Menezes (técnico à época da votação), Thiago Silva (capitão) e Cléber Machado (jornalista) no masculino, enquanto no feminino votaram Jorge Barcellos (técnico que também já deixou o cargo), Marta (capitã) e Jorge Luiz Rodrigues (jornalista). Já o vencedor do Prêmio Puskás, entregue ao atleta que anotou o gol mais bonito do ano, sai de votação aberta ao público na internet, e quem escolhe o time ideal são os 50 mil jogadores filiados à FIFA.

Esses 50 mil atletas formaram não uma seleção do mundo, mas do Campeonato Espanhol. Foram cinco jogadores do Barcelona, cinco do Real Madrid e um do Atlético de Madrid. Até concordo que os dois primeiros times de fato reúnem o que há de melhor no planeta bola. Porém, para mim, a grife de catalães e madridistas fez com que o "eleitorado" deixasse de olhar para ligas até mais fortes do que a espanhola. As minhas mudanças começariam pelas laterais. Na direita, trocaria Daniel Alves por Philipp Lahm, finalista da Champions com o Bayern, e na esquerda optaria por Ashley Cole, peça importante do Chelsea campeão europeu, ao invés de Marcelo. Na zaga, o ótimo defensor Mats Hummels, campeão alemão com o Borussia Dortmund, substituiria Sérgio Ramos.

No meio-campo, senti bastante a ausência de Andrea Pirlo. Aos 33 anos, o camisa 21 foi o cérebro da Juventus campeã nacional invicta e da Itália na Euro. Ele poderia ocupar a vaga de Xavi, não tão brilhante como o italiano em 2012. Na frente, vi muitas pessoas pedindo Didier Drogba no lugar de Falcao. Afinal, o marfinense foi o craque do Chelsea no título da Champions - e, não fossem seus gols, duvido que os ingleses tivessem o mesmo sucesso. Apesar disso, optaria pelo colombiano, que continuou em evidência depois de conquistar a Liga Europa em maio. Falcao marcou três gols na decisão da Supercopa europeia contra o Chelsea em agosto e já fez 17 no atual Espanhol. Lembrando que Drogba transferiu-se para Shangai Shenua, da China, depois do título europeu.

Essa "badalação" sobre Barcelona e Real Madrid também se refletiu no banco de reservas. Ao lado de Vicente del Bosque e José Mourinho, Pep Guardiola mais uma vez concorria a melhor treinador do mundo. Não contesto a competência do técnico catalão, vencedor com méritos em 2011, mas apenas a conquista da Copa do Rei, sinceramente, não o credenciava ao prêmio esse ano. Em seu lugar, colocaria Roberto Di Matteo, comandante do Chelsea no histórico título europeu dos Blues, eliminando inclusive o Barcelona de Guardiola na semifinal. Di Matteo até foi mais lembrado pelos eleitores, mas seus 208 votos tiveram peso inferior ao dos 197 recebidos pelo espanhol - o primeiro colocado na preferência dos eleitores recebe 5 pontos, o segundo, 3, e o terceiro, 1 ponto.

Quanto a Mourinho, não considero sua presença absurda, mas ele também não estaria na minha lista. Jürgen Klopp, do Borussia Dortmund, a meu ver merecia mais. Ele foi bicampeão da Bundesliga e acabou na primeira colocação do "grupo da morte" da Champions, superando nada menos que o Real Madrid do próprio Mourinho, o Manchester City e o Ajax. Por fim, a eleição do Prêmio Puskás, que certamente contou com muitos votos de internautas turcos no vencedor Miroslav Stoch. Para mim, o tento mais espetacular em 2012 foi o de Zlatan Ibrahimovic contra a Inglaterra. Como ele ficou de fora, optaria pelo de Falcao, cujo nome, muitos não sabem, é uma homenagem ao craque brasileiro Paulo Roberto Falcão. Vem daí a inspiração do colombiano?

Resumindo, meus votos seriam os seguintes (em negrito, os vencedores):

Time ideal: Casillas; Lahm, Piqué, Hummels e Ashley Cole; Xabi Alonso, Pirlo e Iniesta; Cristiano Ronaldo, Messi e Falcao
Melhores jogadores: Messi, Cristiano Ronaldo e Iniesta
Melhores técnicos: Vicente Del Bosque, Roberto Di Matteo e Jurgen Klopp
Prêmio Puskás: Falcao García (não considerando o gol de Ibrahimovic, feito depois do anúncio dos concorrentes)

Abaixo, confira o golaço de Falcao García filmado das arquibancadas. Chama a atenção a reação eufórica dos torcedores que presenciaram essa verdadeira obra-prima do atacante colombiano.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Nem boas atuações dos concorrentes na Euro foram suficientes para desbancar a lenda chamada Lionel Messi

Messi, C. Ronaldo e Iniesta concorriam à Bola de Ouro
Deu a lógica em Zurique. Com 41,6% dos votos de jogadores, treinadores e jornalistas, Lionel Messi confirmou o favoritismo, superou Cristiano Ronaldo (23,68%) e Andrés Iniesta (10,91%) e foi considerado o melhor jogador do mundo pelo quarto ano consecutivo. A conquista representa mais um recorde para a carreira do argentino, o único até aqui eleito em quatro ocasiões. Antes dele, cinco atletas já haviam levado o prêmio três vezes: Johan Cruyff, Michel Platini e Marco van Basten  ganharam a Bola de Ouro da France Football, enquanto Zinedine Zidane e Ronaldo faturaram o troféu da FIFA - lembrando que as duas premiações foram unificadas em 2010.

Em 2012, o páreo para Messi era mais complicado, já que seus dois concorrentes disputaram no meio do ano a Eurocopa. E, embora eu ache injusto uma competição da qual nem todos participam interferir na eleição do melhor jogador do planeta, é inegável que esses torneios de seleções têm influência no momento do voto. À exceção de 2010, o prêmio da FIFA sempre acabou nas mãos do atleta que mais havia se destacado na Copa do Mundo meses antes - Romário, em 1994, Zidane, em 1998, Ronaldo, em 2002, e Fabio Cannavaro, em 2006. O meia francês também foi eleito pela entidade em 2000, quando conduziu seu país ao título europeu. Com relação à Bola de Ouro, o zagueiro alemão Matthias Sammer a conquistou em 1996, ano em que foi o craque da Euro.

Esse cenário vem se alterando nos últimos anos. Em 2010, apesar de não ter feito uma Copa à altura de suas atuações no Barcelona e de não ter conquistado a Champions, outro campeonato que faz a diferença na votação do melhor jogador, Messi foi eleito o craque daquele ano. Porém, é difícil imaginar que uma boa aparição em um torneio como a Eurocopa não possa mudar os rumos da premiação. E Cristiano Ronaldo e Iniesta não decepcionaram. O português marcou três gols, todos eles decisivos, e terminou como um dos artilheiros. Já o meia da Espanha foi o craque da seleção bicampeã continental e, consequentemente, de toda a competição - o que lhe rendeu, inclusive, o título de melhor jogador da Europa, desbancando justamente Messi e Ronaldo.

Entretanto, o bom desempenho dos europeus não foi suficiente para desbancar Lionel Messi no prêmio mais cobiçado. Em 2012, o camisa 10 da equipe blaugrana conquistou apenas a Copa do Rei, o que é pouco em comparação com os anos anteriores e com os próprios títulos de Cristiano Ronaldo, campeão espanhol e da Supercopa do país, mas os números individuais de Messi se multiplicaram e ganharam proporções impressionantes. Ele marcou 91 gols e se tornou o maior artilheiro da história em um ano solar (de janeiro a dezembro), superando Pelé e Gerd Müller. Para se ter uma ideia, o Liverpool, tradicional clube da Europa, foi às redes 95 vezes em partidas oficiais no ano passado, somente quatro a mais que Messi, que ainda distribuiu 23 assistências.

Como eu já disse, o atacante de 25 anos foi eleito o melhor jogador do mundo pela quarta vez consecutiva. A primeira aconteceu em 2009, quando Messi triunfou simplesmente tudo o que era possível com o Barcelona. De lá até aqui, as estatísticas do argentino dificultam bastante a missão de discordar de alguma dessas quatro escolhas. A única que contesto é a de 2010, ano em que, na minha opinião, Wesley Sneijder era o merecedor do prêmio. O meia holandês foi peça-chave da Internazionale nos títulos do Campeonato Italiano, da Copa da Itália e da Liga dos Campeões, além de ter sido um dos artilheiros e vice-campeão do Mundial da África do Sul. Entretanto, não considerei a escolha de Messi um absurdo, até porque, tecnicamente, ele era o melhor.

Essa conquista sem dúvida trará à tona questionamentos que, a meu ver, não têm muita relevância. Messi é o maior jogador de de todos os tempos? Ele já ultrapassou Pelé, Puskás, Cruyff, o compatriota Maradona, Ronaldo e Zidane? Para mim, estabelecer relações entre um atleta de hoje e de décadas atrás pode nos induzir facilmente ao erro, sobretudo pelo fato de o futebol ser um esporte em completa transformação. O jogo de hoje é totalmente diferente do jogo dos anos 60 e 70, por exemplo. A única certeza que tenho é a de que Messi já ocupa há algum tempo o patamar de "lenda" ao lado de nomes como os que citei acima. Bom para nós, que podemos ver de perto um craque de talento semelhante ao de jogadores históricos que não pudemos acompanhar.

Abaixo, assista a vídeos com alguns lances dos três indicados à Bola de Ouro em 2012 e tire suas próprias conclusões. Em sua opinião, quem foi o melhor jogador do mundo no ano passado?





domingo, 23 de dezembro de 2012

Arsenal e Milan abusaram da sorte e deverão ter vida duríssima nas oitavas da Liga dos Campeões

Milan do jovem El Shaarawy enfrentará o Barcelona
A UEFA realizou na última quinta-feira, dia 20, o sorteio das oitavas-de-final da Liga dos Campeões 2012/2013. Ao todo, 16 times de nove países diferentes disputarão vagas entre os oito melhores da competição continental. Dessas nações que se mantêm vivas no torneio, destaque para a Espanha, com quatro representantes no mata-mata, e para a Alemanha, que classificou suas três equipes na liderança na fase de grupos. A Inglaterra, por outro lado, tem só dois clubes nas oitavas, mas vale lembrar que na última temporada o cenário era o mesmo e o Chelsea acabou campeão.

A não ser em confrontos muito desiguais tecnicamente, arriscar palpites no esporte é complicado, sobretudo em eliminatórias. Na Champions e na maioria dos campeonatos de futebol ao redor do mundo, apenas dois jogos definem o futuro dos times no certame, o que ocasiona muitas vezes as famosas "zebras". Poucas pessoas imaginavam, por exemplo, que o Chelsea faria frente ao Barcelona nas semifinais da temporada anterior e conquistaria o título na casa do Bayern de Munique, o adversário dos ingleses na decisão. Aliás, logo após o sorteio do mata-mata da edição passada, quase ninguém apostava nos Blues como futuros campeões. Apesar disso, já é possível ao menos apontar quem deverá ter vida mais complicada para chegar à final em Wembley.

Gostaria de falar de duas equipes em especial. No meu texto sobre o sorteio dos grupos, disse que Arsenal e Milan, fragilizados com a perda de importantes jogadores, deveriam ficar satisfeitos com a chave em que haviam caído, visto que a primeira colocação era bastante acessível. Porém, nenhum deles aproveitou, e agora ambos devem pagar caro por esse vacilo. O time inglês perdeu a essencial referência de Robin van Persie para o rival Manchester United e, muito por conta disso, sofreu derrotas em jogos nos quais deveria ter se imposto, como no revés em pleno Emirates para o Schalke 04, que acabou no topo do grupo B. Agora, o adversário do Arsenal nas oitavas será indigesto: o Bayern de Munique, finalista da última edição e líder disparado da Bundesliga.

O Milan, que dividiu a chave C com Málaga, Zenit e Anderlecht, também vem penando depois de o rico PSG ter levado Thiago Silva e Zlatan Ibrahimovic para a França. A equipe rossonera, a exemplo do Arsenal, se saiu mal em partidas nas quais tinha a obrigação de vencer e simplesmente não ganhou nenhum duelo em San Siro. Foram dois empates, com Anderlecht e Málaga, e uma derrota para o Zenit. E o que mais chama a atenção é o fato de os comandados de Massimo Allegri terem marcado somente um gol na Itália. A "punição" não poderia ter sido maior: confronto nas oitavas com o Barcelona, cujo poder é do conhecimento de todos. Rossoneros e blaugranas, vale lembrar, se enfrentaram nas quartas-de-final da última temporada, e o Barça levou a melhor.

Para quem não sabe, o sorteio das oitavas-de-final da Champions é direcionado para que os primeiros colocados dos grupos enfrentem os segundos. Esse processo tem duas restrições: equipes do mesmo país ou que estiveram na mesma chave não podem cruzar logo de cara. Sendo assim, caso Arsenal e Milan tivessem ficado com a primeira posição na fase de grupos, seus possíveis adversários seriam Porto, Málaga (para o Arsenal) e Schalke 04 (para o Milan), Real Madrid, Shakhtar Donetsk, Valencia, Celtic e Galatasaray. Há algumas pedras nesse caminho também, como Real e Shakhtar, mas as chances de sucesso para Gunners e rossoneros inegavelmente eram maiores. Além, claro, da oportunidade de definir a classificação em casa.

Enfim, como eu já falei, é comum vermos surpresas em mata-mata, até porque o futebol, felizmente, não é uma ciência exata. Arsenal e Milan têm, sim, condições de superar Bayern e Barcelona, embora esses resultados sejam no momento improváveis. Disse "no momento" porque, vale lembrar, os europeus ainda poderão se reforçar na janela de transferências de janeiro, ou seja, antes dos duelos decisivos da Liga dos Campeões, que começam somente em fevereiro. Entretanto, as expectativas de contratações por parte dos dois clubes não são das mais otimistas, e a sequência de ambos na competição pode ir por água abaixo devido ao desempenho abaixo do esperado na fase de grupos. Acordar apenas a esta altura do torneio pode ser muito tarde.

Falando dos outros confrontos, vejo a Alemanha com boas possibilidades de prosseguir com seus três representantes: Schalke 04, Bayern de Munique e Borussia Dortmund. O Dortmund, aliás, deve fazer um duelo muito interessante com o Shakhtar, já que as duas equipes apresentaram um futebol vistoso na fase de grupos. Outro embate que promete é Manchester United x Real Madrid. Serão 12 títulos em campo, sem falar no aguardado reencontro de Cristiano Ronaldo com os Red Devils, com quem foi campeão europeu em 2008. A Juve é favorita contra o Celtic, mas não é demais lembrar que os escoceses venceram em casa o Barcelona e por pouco não arrancaram alguns pontinhos no Camp Nou. Abaixo, confira todos os oito duelos das oitavas-de-final:

Schalke 04 x Galatasaray (ida em 20/02 e volta em 12/03)
Juventus x Celtic (ida em 12/02 e volta em 06/03)
PSG x Valencia (ida em 12/02 e volta em 06/03)
Málaga x Porto (ida em 19/02 e volta em 13/03)
Bayern de Munique x Arsenal (ida em 19/02 e volta em 13/03)
Borussia Dortmund x Shakhtar Donetsk (ida em 13/02 e volta em 05/03)
Barcelona x Milan (ida em 20/02 e volta em 12/03)
Manchester United x Real Madrid (ida em 13/02 e volta em 05/03)

No vídeo a seguir, confira os gols de Manchester United 4 x 3 Real Madrid, pelas quartas-de-final da Champions 2002/2003. Os três tentos do brasileiro Ronaldo deram a vaga aos merengues. Agora, os holofotes novamente estarão voltados para um Ronaldo, mas para o português Cristiano, que reencontrará os Red Devils pela primeira vez desde a sua saída, em 2009.


domingo, 16 de dezembro de 2012

Os méritos de Tite no título mundial do Corinthians e os benefícios da taça para o clube e para o treinador

Tite, protagonista de um time de vários protagonistas
O gol do centroavante peruano Paolo Guerrero aos 24 minutos do segundo tempo garantiu a vitória por 1 a 0 sobre o Chelsea e o cobiçado título mundial ao Corinthians. O merecido triunfo alvinegro pôs fim à sequência de cinco conquistas europeias, já que os times do Velho Continente levaram a melhor na competição de 2007 até o ano passado. Além disso, com o resultado, os corintianos completaram uma espécie de "trinca", levantando em um curto período de dois anos as três taças mais desejadas por seus rivais: o Campeonato Brasileiro, em 2011, e a Libertadores da América e o Mundial de Clubes, em 2012.

Apontar no elenco atual apenas dois ou três responsáveis por esse sucesso recente é uma missão quase impossível. Cássio, que conquistou a titularidade no decorrer da temporada, fechou o gol na Libertadores - sobretudo no duelo com o Vasco, pelas quartas-de-final, no Pacaembu - e na final com o Chelsea. A dupla de volantes funcionou em plena sintonia: Ralf deu mais segurança à defesa, intransponível no Japão, enquanto Paulinho foi sempre um importante elemento surpresa no ataque. O experiente Danilo, que trilhou caminho semelhante no São Paulo em 2005, apareceu nos momentos cruciais, como na semifinal contra o Santos e na decisão do Mundial. Na frente, coube a Emerson e Guerrero a função de marcar os gols decisivos nos dois títulos da equipe esse ano.

Fazer essas peças trabalharem em conjunto passa pelas mãos do treinador. E Tite foi muito competente nessa tarefa de formar um grupo onde todos participam, e não apenas um time dependente de um ou outro valor individual. O técnico conseguiu extrair o máximo dos jogadores que tinha à disposição e, o mais importante, aplicou à equipe conceitos fundamentais do futebol moderno, especialmente a marcação por pressão e a dedicação tática sem a bola - tanto que colocou o atacante Jorge Henrique para marcar o lado esquerdo do Chelsea na final. Na decisão de 2011, a ausência dessas características e a dependência de Neymar foram fundamentais na goleada por 4 a 0 do Barcelona no Santos, além, claro, da qualidade do time espanhol.

A competitividade da equipe era tão grande que até diminuiu aquela ideia do abismo técnico entre europeus e sul-americanos e que ficou mais evidente no confronto dos santistas com os catalães. Porém, as diferenças ainda existiam e só valorizam o título. Nesta semana, a Pluri Consultoria publicou um estudo que levava em consideração o valor de mercado dos dois finalistas. E os números impressionam, embora não sejam surpreendentes. A equipe do Chelsea que entrou em campo está avaliada em aproximadamente R$ 688 milhões, números mais de cinco vezes maiores que os do Corinthians, cujos titulares somam R$ 125,5 milhões. Sem falar que, juntos, o espanhol Juan Mata e o belga Eden Hazard têm valor de mercado equivalente ao de todo o grupo corintiano.

Vale lembrar que esse trabalho de Tite à frente do Corinthians por pouco não foi interrompido em seu início, quando o clube viveu um dos capítulos mais trágicos de sua história: a eliminação para o Tolima na fase preliminar da Libertadores de 2011. A diretoria da época pode até ser criticada por outras questões, mas merece elogios pela manutenção do treinador. E curioso é ver que o próprio Chelsea sempre caminhou em direção contrária com Roman Abramovich. Desde que o russo assumiu o comando dos Blues, em 2003, nove treinadores já dirigiram a equipe, e apenas três - José Mourinho, Guus Hiddink e Roberto Di Matteo - foram campeões. Diante disso, difícil acreditar que Abramovich teria a mesma paciência com Tite após a derrota  na Colômbia.

Campeão brasileiro, sul-americano e mundial, o Corinthians, que já era um gigante, subiu de patamar e hoje vê a maioria dos rivais do andar de cima. A exemplo de Tite, que merecidamente foi cogitado por várias pessoas - inclusive por mim - para comandar a seleção. Discussões como essa, aliás, são bem mais relevantes do que algumas que apareceram durante a semana. O clube alvinegro pode ser chamado de "bicampeão mundial"? Isso pouco importa. Essencial é saber que a edição de 2000 também tem seu valor, como aconteceu com a Copa Rio na década de 1950. Houve de fato a "invasão corintiana" ao Japão? Importante é que quem esteve lá protagonizou um belo espetáculo e, assim como são-paulinos e colorados, acompanhou de perto um fato inesquecível.

No vídeo abaixo, confira o histórico gol do peruano Paolo Guerrero na voz sempre contagiante do locutor esportivo José Silvério.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Histórico recente do Atlético Mineiro ajuda a entender euforia dos torcedores ao término do Brasileirão

Bernard, Ronaldinho e Pierre, destaques do Galo em 2012
27 de novembro de 2005. Penúltima rodada do Campeonato Brasileiro. À beira do rebaixamento, o Atlético Mineiro entra no gramado do Mineirão para enfrentar o Vasco da Gama com a seguinte escalação: Bruno; Cáceres, Lima e Thiago Junio; Rodrigo Dias, Alicio, Rafael Miranda, Tchô e Rubens Miranda; Pablo Gimenez e Renato. A defesa até tem sucesso na missão de parar Romário, que seria o artilheiro da competição com 22 gols, mas o ataque não marca, e o 0 a 0 decreta o primeiro descenso da história atleticana.

O Galo despertou desse pesadelo rapidamente e retornou à elite em 2006 arrastando multidões ao estádio, como já se tornou corriqueiro com grandes clubes na segunda divisão. Os anos seguintes, porém, voltaram a ser nebulosos para o Atlético, especialmente se levarmos em consideração os bons resultados obtidos pelo Cruzeiro. E é inegável que essa comparação com o maior rival faz muita diferença para o torcedor, sobretudo em estados que possuem somente dois times de maior expressão. É assim no Rio Grande do Sul, com Grêmio e Internacional, na Bahia, com Bahia e Vitória, no Pará, com Paysandu e Remo, e em Minas Gerais, com Atlético e Cruzeiro. Nesse duelo mineiro, quem quase sempre levava a pior nas temporadas recentes era a parte alvinegra.

Talvez os dois anos que melhor ilustrem esse cenário sejam os de 2008 e 2009. Os rivais de Minas fizeram a decisão do estadual em ambos e, incrivelmente, o Atlético foi goleado por 5 a 0 nas duas oportunidades, o que deixou os atleticanos arrasados. Como ir à escola ou ao trabalho depois de uma derrota como essa para o principal concorrente? Para piorar, nas duas edições do Brasileirão, o Cruzeiro ficou na frente do rival. Em 2008, o Galo foi o 12º, enquanto a Raposa terminou em terceiro. Em 2009, o Atlético até esboçou brigar pelo título, mas acabou em sétimo, três posições abaixo do Cruzeiro, o quarto. O que aliviou o sentimento de decepção foi a vitória do Estudiantes sobre os cruzeirenses na final da Libertadores. Mas se contentar com isso era pouco.

As outras duas temporadas após a volta à primeira divisão não foram diferentes. Em 2007, Galo em sétimo e Cruzeiro em quinto. Em 2010, o Atlético foi o 13º, a três pontos do chamado "Z-4", e a Raposa ficou com o vice-campeonato, a dois pontos do campeão Fluminense, classificando-se novamente para a maior competição da América. A possibilidade de se redimir com a torcida veio no Brasileirão de 2011. Não que o Atlético tenha disputado a taça até o final. Pelo contrário. Só que o clube alvinegro finalmente terminaria na frente dos cruzeirenses e chegou à última rodada com chances de rebaixar o rival para a segundona. O Galo, no entanto, foi goleado por 6 a 1 em um jogo que levantou muitas suspeitas e, inacreditavelmente, virou o ano de mal com os torcedores.

Todos esses episódios decepcionantes explicam em grande parte a euforia da torcida do Atlético Mineiro, que muito tempo depois terá um final de ano bem mais feliz que o do Cruzeiro. Foi justamente com a vitória por 3 a 2 sobre o maior rival, no domingo, que o Galo consolidou a segunda colocação e a vaga direta na fase de grupos da Libertadores de 2013, 12 anos depois da última aparição do clube do torneio sul-americano. As boas exibições em 2012 renderam prêmios a diversos jogadores. Réver, Leonardo Silva, Marcos Rocha e Ronaldinho estiveram na seleção do Campeonato Brasileiro, além de Bernard, eleito a revelação. Mas também representou um prêmio ao torcedor atleticano, cujo amor pelo time foi colocado à prova em inúmeras ocasiões.

Difícil afirmar com plena convicção que o desempenho do Atlético Mineiro neste ano garante a equipe brigando por títulos no futuro. O Palmeiras, por exemplo, chegou a fazer boas campanhas após o rebaixamento, mas, depois de duas temporadas ruins, retornou à segunda divisão. Porém, o primeiro passo foi dado. O Atlético voltou a impor respeito dentro de campo, principalmente com as contratações de Victor e Ronaldinho, dois jogadores acima dos padrões brasileiros. Atletas desse nível são fundamentais para repartir a responsabilidade com os mais jovens, que naturalmente começam a aparecer - foi assim com Bernard em 2012. Essa pressão é comum para o Galo, clube que, apesar de todas as adversidades citadas acima, continua sendo um gigante.

No vídeo abaixo, confira a vitória por 3 a 2 do Atlético Mineiro em cima do Cruzeiro. Com o resultado positivo sobre o maior rival, atleticanos consolidaram a segunda posição no Campeonato Brasileiro e a vaga direta na Libertadores de 2013.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Vítima da política da CBF, Mano Menezes também foi perseguido por incoerência e imediatismo dos brasileiros

Mano Menezes deu lugar a Felipão na seleção brasileira
A CBF anunciou há uma semana a demissão de Mano Menezes e na manhã desta quinta-feira o retorno de Luiz Felipe Scolari ao comando da seleção brasileira. A opção pela troca de treinador pegou muitos de surpresa. Não porque o trabalho de Mano à frente da equipe nacional tenha sido incontestável, mas pelo fato de ter acontecido justamente no momento em que o técnico parecia encontrar um esquema de jogo no mínimo ousado e interessante, com dois volantes - Paulinho e Ramires - de maior saída de bola e um ataque de bastante movimentação.

Neste texto, não pretendo abordar os motivos que levaram a Confederação a tomar essa decisão, até porque eles têm um claro viés político - não à toa Andrés Sánchez abandonaria o cargo de diretor de seleções, que da noite para o dia deixou de existir. Quero questionar as razões que fariam a maioria dos brasileiros também seguir por esse mesmo caminho de trocar o comando técnico a pouco mais de um ano e meio da Copa do Mundo de 2014. Afinal, não dá para negar que, se o poder estivesse nas mãos do povo, o destino de Mano seria exatamente igual. Esse cenário, que já se tornou constante entre os clubes nacionais, só evidencia o imediatismo e a incapacidade de se analisar o contexto atual do nosso futebol por parte de alguns dirigentes e torcedores.

Como eu já disse, era possível contestar algumas escolhas de Mano Menezes. Difícil entender como Ronaldinho foi convocado para amistosos no final de 2010, quando não vivia uma fase extraordinária no Milan, e não figurou nas listas mais recentes, já que vem fazendo uma temporada bem melhor pelo Atlético Mineiro. Também não acho que o futebol brasileiro vive uma "entressafra", ideia defendida por Ronaldo. Mano tinha, sim, um bom material humano em mãos. Thiago Silva, Daniel Alves e Marcelo são três dos melhores defensores atualmente, Ramires foi fundamental no título europeu do Chelsea, Oscar se adaptou como poucos ao clube inglês, e Neymar esteve pelo segundo ano consecutivo entre os 23 indicados à Bola de Ouro.

Transformar essas peças em um conjunto de engrenagens que funcione perfeitamente, no entanto, não é um processo fácil. Por conta disso, me impressiona o imediatismo que tomou conta dos brasileiros e do próprio Felipão, que na sua apresentação disse que essa seleção tem a obrigação de ser campeã jogando em casa. Por quê? É importante lembrar que o elenco nacional passou por uma reformulação grande após a eliminação de 2010 e que tem protagonistas muito jovens. E essas mudanças não eram uma entre tantas opções de Mano ao assumir a seleção. Naquela época ele foi obrigado a dar chance aos mais novos e a deixar alguns medalhões de lado. Ou alguém acha que Juan, Gilberto, Josué, Júlio Baptista, Kléberson e Grafite ainda tinham espaço?

Muitos vão dizer que uma seleção como a brasileira não pode desperdiçar mais uma oportunidade de conquistar a Copa do Mundo como anfitriã - visto que, em 1950, foi vice-campeã. Porém, uma derrota que aconteceu há mais de 60 anos não pode gerar tanta responsabilidade em jogadores que começam a despontar agora. Sem falar que perder a Copa em seu próprio país não é uma questão de vida ou morte. Em 1990, a Itália ficou com a terceira colocação em casa e quase conquistou o título quatro anos depois. Em 2006, a Alemanha também parou nas semifinais diante de sua torcida, mas na África do Sul, com ótimas atuações dos jovens Özil e Müller, fez uma grande competição. Agora, os alemães chegam ao Brasil com boas chances de conquistar o tetra.

A incoerência dos brasileiros também fez parte desse período de Mano na seleção. Quando a forte Holanda derrotou o Brasil de Dunga em 2010, os títulos da Copa América de 2007 e da Copa das Confederações de 2009 foram praticamente "invalidados" pelos torcedores, para os quais essas taças não tinham importância se o principal objetivo, no caso a Copa do Mundo, não havia sido atingido. O mesmo aconteceu com Carlos Alberto Parreira, campeão dos dois torneios anteriores ao Mundial, mas eliminado pela França em 2006. Com Mano, o desempenho na competição continental formou a opinião de várias pessoas. Como esses troféus têm importância secundária após uma eliminação no Mundial e primária para decidir se o técnico deve ou não permanecer?

Rever alguns conceitos é fundamental. Diretores e brasileiros em geral muitas vezes aparecem defendendo o trabalho a longo prazo, mas na primeira oportunidade pedem a cabeça do treinador. Empolgaram-se durante quatro anos com a equipe para lá de vencedora que Pep Guardiola formou enquanto dirigiu o Barcelona e com os métodos de treino do catalão, mas logo discordaram da ideia de um estrangeiro como técnico do Brasil, como fez o presidente da CBF, José Maria Marín. Aliás, esse é outro ponto relevante: admitir que países como Espanha e Alemanha têm talentos tão bons ou até melhores que os nossos, dentro de campo ou no banco de reservas. Pois reconhecer o talento adversário pode ser essencial para que a seleção brasileira volte a reinar no futuro.

No vídeo abaixo, confira os lances de Brasil 4 x 0 Japão, no dia 16 de outubro de 2012. A atuação foi uma das melhores (se não a melhor) da "Era Mano". A seleção brasileira foi a campo com a seguinte escalação: Diego Alves; Adriano, Thiago Silva, David Luiz e Leandro Castán; Paulinho, Ramires, Oscar, Kaká, Hulk e Neymar.

sábado, 10 de novembro de 2012

Falta de peso de camisa e pouca tradição em determinado torneio explicam sozinhas uma má campanha?

Citizens vivem situação complicada na Champions
Na última terça-feira, pela Liga dos Campeões, o Manchester City não passou de um empate em 2 a 2 com o Ajax. O resultado foi péssimo para os Citizens, que continuam na lanterna do chamado "grupo da morte" com possibilidades remotas de classificação. Em quatro jogos, o clube inglês somou apenas dois pontos, cinco a menos que o Real Madrid, o segundo colocado, e seis em relação ao líder Borussia Dortmund. Tudo isso faltando duas rodadas para o fim da fase de grupos. São grandes as chances, portanto, de o City não alcançar sequer o mata-mata pela segunda aparição consecutiva no torneio continental.

Más campanhas como essa fazem com que as pessoas busquem explicações para um desempenho tão fraco. O motivo que justifica a queda de rendimento do City na Champions parece unanimidade e já é do conhecimento da maioria: "falta de tradição em competições europeias". Afinal, essa é apenas a terceira participação do clube na história do principal torneio da Europa, que começou a ser disputado em 1955. A primeira foi na temporada 1968/1969, quando o time azul de Manchester vinha de um título inglês. Mais de 40 anos se passaram para os Citizens retornarem à elite europeia - a volta aconteceu na temporada 2011/2012 após a 3ª colocação na Premier League. Esse fator é relevante e, sem dúvida, deve ser levado em consideração.

Mas será que ele por si só explica os fracos números do Manchester City na Liga dos Campeões? Na minha opinião, não. É importante considerar que, tanto nesta quanto na última temporada, o time de Roberto Mancini caiu em grupos fortes. Em 2011, ficou atrás do finalista Bayern de Munique e do Napoli, que perdeu no mata-mata para o campeão Chelsea. Em 2012, divide a chave com outros três campeões nacionais. Já na partida de terça, por exemplo, não só a tradição do tetracampeão europeu Ajax teve influência no bom resultado conquistado pelos holandeses. Erros de arbitragem - gol legal de Aguero anulado e pênalti não marcado em Balotelli - e duelos táticos também fizeram parte do jogo, como destaca o jornalista André Rocha em seu blog.

Além disso, se apenas a tradição e o peso da camisa são determinantes em um jogo de futebol, o que justifica a excelente campanha do Málaga nessa mesma Champions? Em sua primeira aparição na história da competição europeia, a equipe espanhola tem o segundo melhor desempenho entre os 32 times, muitos deles "gigantes", que disputam a fase de grupos. O Málaga é o líder do grupo C com 10 pontos ganhos, deixando na segunda colocação o Milan, clube que levantou o troféu do torneio nada menos que sete vezes. Aliás, nos duelos entre os dois times, essa diferença de títulos pouca diferença fez. Os espanhóis venceram em casa e por pouco não levaram os três pontos na Itália: empate em 1 a 1, resultado que já lhes garantiu vaga no mata-mata.

Sem falar que eliminações precoces na Liga dos Campeões não são exclusividade de clubes com poucos resultados expressivos no torneio. O exemplo mais recente é o do Manchester United, principal rival do City e tricampeão europeu. Na última temporada, o time de Alex Ferguson vinha de um vice-campeonato, mas o histórico positivo dos Red Devils na competição não foi suficiente para evitar a queda ainda na fase de grupos. Em sua chave, o United ficou atrás do Benfica e do Basel, que nunca chegou perto de levantar o caneco. A equipe vermelha de Manchester, inclusive, já havia dado adeus mais cedo à competição na temporada 2005/2006. O mesmo aconteceu com Juventus - bicampeã - e Liverpool - pentacampeão - na temporada 2009/2010.

Enfim, não quero dizer que a tradição é irrelevante e tem pouca influência em um resultado. Enfrentar um time campeão e acostumado às vitórias é na maioria das vezes bem mais complicado. No entanto, acho muito precipitado atribuir o desempenho de uma equipe exclusivamente à história, até porque, em algumas ocasiões, o "currículo" dos atletas que compõem o elenco não coincide com o do clube que defendem. O futebol é um esporte muito complexo para se resumir a explicações exatas. Um passe errado, uma finalização certeira, uma substituição, uma falha do juiz e uma defesa milagrosa. São diversos os fatores que determinam um placar, um rebaixamento ou um título. Buscar uma única justificativa, assim, pode nos induzir ao erro.

No vídeo abaixo, confira os gols do empate em 2 a 2 entre Manchester City e Ajax. Má campanha dos ingleses vai além da "falta de tradição" na Champions. Erros de arbitragem, duelos táticos e atuações individuais também têm influência.

domingo, 4 de novembro de 2012

Paixão pelo clube de coração e pelo futebol lado a lado

Neymar: atuação de gala e aplausos do adversário
Admito: sou apaixonado pelo Palmeiras. Tenho na cabeça escalações de times históricos, visto a camisa alviverde assim que acordo em dias de jogo, já chorei em inúmeras ocasiões, de alegria e de tristeza, e acredito nas nossas metas até que não haja mais chances matemáticas. Eu, que cresci sendo chamado pela maioria de "palmeirense" ao invés do meu nome de fato, não consigo deixar de fazer tudo isso da noite para o dia, embora a atividade jornalística exija que muitos profissionais não revelem seus times de coração.

Ao mesmo tempo, também amo o futebol. Gosto de acompanhar todos os campeonatos que estiverem ao meu alcance, independentemente do local onde são disputados, do que está em jogo e da qualidade técnica dos atletas envolvidos na peleja. Neste sábado, aproveitei a folga e dediquei o meu dia ao esporte bretão. Abdiquei de dormir até depois do almoço para assistir ao clássico entre Manchester United e Arsenal, vi a derrota do Tottenham para o Wigan, o empate em 0 a 0 do West Ham com o Manchester City, passei por Oeste 1 x 1 Fortaleza, pelas quartas-de-final da série C, e encerrei meu "expediente" com chave-de-ouro: Cruzeiro 0 x 4 Santos, em uma das atuações individuais mais fantásticas que já presenciei. Mas sobre isso falarei mais tarde.

Talvez por gostar tanto de futebol é que, mesmo palmeirense fanático, nunca vi problema em enaltecer o adversário e reconhecer seus méritos quando merecido. Discordo, por exemplo, daquela ideia de que Rogério Ceni "é um goleiro mediano que se consagrou porque faz muitos gols de falta e pênalti", ao contrário do que 99% dos que não torcem para o São Paulo dizem. Ainda que não tivesse passado da marca dos 100 tentos em sua carreira, o camisa 1 são-paulino seria considerado um dos melhores arqueiros que o Brasil já teve, ao lado do "rival" (e meu ídolo) Marcos, com quem dezenas de jornalistas gostam de compará-lo desnecessariamente. Ambos são verdadeiras lendas em seus clubes, assim como Sócrates e Marcelinho no Corinthians.

O caso mais emblemático hoje em dia é o de Neymar. O atacante do Santos é, de longe, o melhor brasileiro em atividade, mas alguns torcedores adversários ainda não admitem que o camisa 11 já é um dos grandes do nosso futebol. Reconheço que, enquanto a bola rola, é comum vaiar e xingar para tentar desestabilizar o jogador rival, como eu e a maioria dos palmeirenses que foram à partida entre Palmeiras e Santos, pelo primeiro turno do Brasileirão deste ano, fizemos. Depois do jogo, no entanto, não há motivos para odiá-lo. Naquele dia, saí chateado do Pacaembu pela derrota por 2 a 1 do meu time, sobretudo pela precária situação em que se encontra, mas, na medida do possível, feliz por ter visto em ação um jogador que me faz gostar ainda mais do futebol.

Quem também passou por essa situação foi a torcida do Cruzeiro. Neste sábado, a equipe mineira, que ultimamente tem apenas feito número no Campeonato Brasileiro, foi humilhada pelo Santos: como eu já havia dito, derrota por 4 a 0 em pleno Independência. Neymar, para variar, acabou como o grande destaque do jogo com três gols e uma assistência. Atuações de gala do santista, porém, já se tornaram corriqueiras. O detalhe curioso é que, nos minutos finais desse duelo, os cruzeirenses aplaudiram e gritaram o nome do atacante da seleção brasileira. É óbvio que essa atitude também ironizava a fraquíssima atuação do Cruzeiro, mas era evidente que aqueles torcedores, das mais variadas idades, estavam felizes por verem Neymar em campo.

Esse fato nos remete ao histórico 19 de novembro de 2005. Naquele dia, Ronaldinho deu um show à parte e ajudou o Barcelona a vencer o Real Madrid por 3 a 0 em pleno Santiago Bernabéu. Os dois golaços anotados pelo brasileiro (que você pode ver nos vídeos que se encontram embaixo do texto) fizeram com que os conservadores madridistas se levantassem de suas poltronas e aplaudissem o atleta do clube catalão. Lembro-me muito bem daquela tarde. Eu, um adolescente de 13 anos que ficava ainda mais encantado com essas atuações, também me levantei do sofá de casa e aplaudi Ronaldinho, um dos meus ídolos de infância. Esse gesto muitas crianças hoje em dia repetem ao verem Neymar, que faz cada uma delas aos poucos se apaixonar por esse esporte.

No primeiro vídeo, veja o que Ronaldinho fez naquele dia para merecer aplausos dos torcedores do Real Madrid no Santiago Bernabéu. Aproximadamente sete anos depois foi a vez de Neymar, outra joia do futebol brasileiro, vivenciar esse sentimento, o que você confere no segundo vídeo.