terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Eleição de Messi foi merecida, mas outros quesitos da premiação dos melhores do mundo podem ser contestados

Bicampeão alemão, Klopp não figurou entre os finalistas
Como disse no último texto, nesta segunda-feira, Lionel Messi foi eleito o melhor jogador do mundo pela quarta vez consecutiva. Embora o argentino não tenha faturado tantos títulos quanto nos anos anteriores, considerei a vitória merecida, dados os números individuais espetaculares que o camisa 10 atingiu. Mas, a meu ver, essa mesma justiça não existiu em alguns outros quesitos da premiação, como na seleção dos três melhores treinadores, no "time ideal" e no gol mais bonito de 2012.

Primeiramente, é importante esclarecer como ocorre essa eleição. Nas escolhas dos melhores jogadores e treinadores, tanto do masculino quanto do feminino, têm direito a voto os capitães e técnicos das seleções nacionais, além de jornalistas escolhidos pela própria FIFA. Representaram o Brasil, por exemplo, Mano Menezes (técnico à época da votação), Thiago Silva (capitão) e Cléber Machado (jornalista) no masculino, enquanto no feminino votaram Jorge Barcellos (técnico que também já deixou o cargo), Marta (capitã) e Jorge Luiz Rodrigues (jornalista). Já o vencedor do Prêmio Puskás, entregue ao atleta que anotou o gol mais bonito do ano, sai de votação aberta ao público na internet, e quem escolhe o time ideal são os 50 mil jogadores filiados à FIFA.

Esses 50 mil atletas formaram não uma seleção do mundo, mas do Campeonato Espanhol. Foram cinco jogadores do Barcelona, cinco do Real Madrid e um do Atlético de Madrid. Até concordo que os dois primeiros times de fato reúnem o que há de melhor no planeta bola. Porém, para mim, a grife de catalães e madridistas fez com que o "eleitorado" deixasse de olhar para ligas até mais fortes do que a espanhola. As minhas mudanças começariam pelas laterais. Na direita, trocaria Daniel Alves por Philipp Lahm, finalista da Champions com o Bayern, e na esquerda optaria por Ashley Cole, peça importante do Chelsea campeão europeu, ao invés de Marcelo. Na zaga, o ótimo defensor Mats Hummels, campeão alemão com o Borussia Dortmund, substituiria Sérgio Ramos.

No meio-campo, senti bastante a ausência de Andrea Pirlo. Aos 33 anos, o camisa 21 foi o cérebro da Juventus campeã nacional invicta e da Itália na Euro. Ele poderia ocupar a vaga de Xavi, não tão brilhante como o italiano em 2012. Na frente, vi muitas pessoas pedindo Didier Drogba no lugar de Falcao. Afinal, o marfinense foi o craque do Chelsea no título da Champions - e, não fossem seus gols, duvido que os ingleses tivessem o mesmo sucesso. Apesar disso, optaria pelo colombiano, que continuou em evidência depois de conquistar a Liga Europa em maio. Falcao marcou três gols na decisão da Supercopa europeia contra o Chelsea em agosto e já fez 17 no atual Espanhol. Lembrando que Drogba transferiu-se para Shangai Shenua, da China, depois do título europeu.

Essa "badalação" sobre Barcelona e Real Madrid também se refletiu no banco de reservas. Ao lado de Vicente del Bosque e José Mourinho, Pep Guardiola mais uma vez concorria a melhor treinador do mundo. Não contesto a competência do técnico catalão, vencedor com méritos em 2011, mas apenas a conquista da Copa do Rei, sinceramente, não o credenciava ao prêmio esse ano. Em seu lugar, colocaria Roberto Di Matteo, comandante do Chelsea no histórico título europeu dos Blues, eliminando inclusive o Barcelona de Guardiola na semifinal. Di Matteo até foi mais lembrado pelos eleitores, mas seus 208 votos tiveram peso inferior ao dos 197 recebidos pelo espanhol - o primeiro colocado na preferência dos eleitores recebe 5 pontos, o segundo, 3, e o terceiro, 1 ponto.

Quanto a Mourinho, não considero sua presença absurda, mas ele também não estaria na minha lista. Jürgen Klopp, do Borussia Dortmund, a meu ver merecia mais. Ele foi bicampeão da Bundesliga e acabou na primeira colocação do "grupo da morte" da Champions, superando nada menos que o Real Madrid do próprio Mourinho, o Manchester City e o Ajax. Por fim, a eleição do Prêmio Puskás, que certamente contou com muitos votos de internautas turcos no vencedor Miroslav Stoch. Para mim, o tento mais espetacular em 2012 foi o de Zlatan Ibrahimovic contra a Inglaterra. Como ele ficou de fora, optaria pelo de Falcao, cujo nome, muitos não sabem, é uma homenagem ao craque brasileiro Paulo Roberto Falcão. Vem daí a inspiração do colombiano?

Resumindo, meus votos seriam os seguintes (em negrito, os vencedores):

Time ideal: Casillas; Lahm, Piqué, Hummels e Ashley Cole; Xabi Alonso, Pirlo e Iniesta; Cristiano Ronaldo, Messi e Falcao
Melhores jogadores: Messi, Cristiano Ronaldo e Iniesta
Melhores técnicos: Vicente Del Bosque, Roberto Di Matteo e Jurgen Klopp
Prêmio Puskás: Falcao García (não considerando o gol de Ibrahimovic, feito depois do anúncio dos concorrentes)

Abaixo, confira o golaço de Falcao García filmado das arquibancadas. Chama a atenção a reação eufórica dos torcedores que presenciaram essa verdadeira obra-prima do atacante colombiano.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Nem boas atuações dos concorrentes na Euro foram suficientes para desbancar a lenda chamada Lionel Messi

Messi, C. Ronaldo e Iniesta concorriam à Bola de Ouro
Deu a lógica em Zurique. Com 41,6% dos votos de jogadores, treinadores e jornalistas, Lionel Messi confirmou o favoritismo, superou Cristiano Ronaldo (23,68%) e Andrés Iniesta (10,91%) e foi considerado o melhor jogador do mundo pelo quarto ano consecutivo. A conquista representa mais um recorde para a carreira do argentino, o único até aqui eleito em quatro ocasiões. Antes dele, cinco atletas já haviam levado o prêmio três vezes: Johan Cruyff, Michel Platini e Marco van Basten  ganharam a Bola de Ouro da France Football, enquanto Zinedine Zidane e Ronaldo faturaram o troféu da FIFA - lembrando que as duas premiações foram unificadas em 2010.

Em 2012, o páreo para Messi era mais complicado, já que seus dois concorrentes disputaram no meio do ano a Eurocopa. E, embora eu ache injusto uma competição da qual nem todos participam interferir na eleição do melhor jogador do planeta, é inegável que esses torneios de seleções têm influência no momento do voto. À exceção de 2010, o prêmio da FIFA sempre acabou nas mãos do atleta que mais havia se destacado na Copa do Mundo meses antes - Romário, em 1994, Zidane, em 1998, Ronaldo, em 2002, e Fabio Cannavaro, em 2006. O meia francês também foi eleito pela entidade em 2000, quando conduziu seu país ao título europeu. Com relação à Bola de Ouro, o zagueiro alemão Matthias Sammer a conquistou em 1996, ano em que foi o craque da Euro.

Esse cenário vem se alterando nos últimos anos. Em 2010, apesar de não ter feito uma Copa à altura de suas atuações no Barcelona e de não ter conquistado a Champions, outro campeonato que faz a diferença na votação do melhor jogador, Messi foi eleito o craque daquele ano. Porém, é difícil imaginar que uma boa aparição em um torneio como a Eurocopa não possa mudar os rumos da premiação. E Cristiano Ronaldo e Iniesta não decepcionaram. O português marcou três gols, todos eles decisivos, e terminou como um dos artilheiros. Já o meia da Espanha foi o craque da seleção bicampeã continental e, consequentemente, de toda a competição - o que lhe rendeu, inclusive, o título de melhor jogador da Europa, desbancando justamente Messi e Ronaldo.

Entretanto, o bom desempenho dos europeus não foi suficiente para desbancar Lionel Messi no prêmio mais cobiçado. Em 2012, o camisa 10 da equipe blaugrana conquistou apenas a Copa do Rei, o que é pouco em comparação com os anos anteriores e com os próprios títulos de Cristiano Ronaldo, campeão espanhol e da Supercopa do país, mas os números individuais de Messi se multiplicaram e ganharam proporções impressionantes. Ele marcou 91 gols e se tornou o maior artilheiro da história em um ano solar (de janeiro a dezembro), superando Pelé e Gerd Müller. Para se ter uma ideia, o Liverpool, tradicional clube da Europa, foi às redes 95 vezes em partidas oficiais no ano passado, somente quatro a mais que Messi, que ainda distribuiu 23 assistências.

Como eu já disse, o atacante de 25 anos foi eleito o melhor jogador do mundo pela quarta vez consecutiva. A primeira aconteceu em 2009, quando Messi triunfou simplesmente tudo o que era possível com o Barcelona. De lá até aqui, as estatísticas do argentino dificultam bastante a missão de discordar de alguma dessas quatro escolhas. A única que contesto é a de 2010, ano em que, na minha opinião, Wesley Sneijder era o merecedor do prêmio. O meia holandês foi peça-chave da Internazionale nos títulos do Campeonato Italiano, da Copa da Itália e da Liga dos Campeões, além de ter sido um dos artilheiros e vice-campeão do Mundial da África do Sul. Entretanto, não considerei a escolha de Messi um absurdo, até porque, tecnicamente, ele era o melhor.

Essa conquista sem dúvida trará à tona questionamentos que, a meu ver, não têm muita relevância. Messi é o maior jogador de de todos os tempos? Ele já ultrapassou Pelé, Puskás, Cruyff, o compatriota Maradona, Ronaldo e Zidane? Para mim, estabelecer relações entre um atleta de hoje e de décadas atrás pode nos induzir facilmente ao erro, sobretudo pelo fato de o futebol ser um esporte em completa transformação. O jogo de hoje é totalmente diferente do jogo dos anos 60 e 70, por exemplo. A única certeza que tenho é a de que Messi já ocupa há algum tempo o patamar de "lenda" ao lado de nomes como os que citei acima. Bom para nós, que podemos ver de perto um craque de talento semelhante ao de jogadores históricos que não pudemos acompanhar.

Abaixo, assista a vídeos com alguns lances dos três indicados à Bola de Ouro em 2012 e tire suas próprias conclusões. Em sua opinião, quem foi o melhor jogador do mundo no ano passado?





domingo, 23 de dezembro de 2012

Arsenal e Milan abusaram da sorte e deverão ter vida duríssima nas oitavas da Liga dos Campeões

Milan do jovem El Shaarawy enfrentará o Barcelona
A UEFA realizou na última quinta-feira, dia 20, o sorteio das oitavas-de-final da Liga dos Campeões 2012/2013. Ao todo, 16 times de nove países diferentes disputarão vagas entre os oito melhores da competição continental. Dessas nações que se mantêm vivas no torneio, destaque para a Espanha, com quatro representantes no mata-mata, e para a Alemanha, que classificou suas três equipes na liderança na fase de grupos. A Inglaterra, por outro lado, tem só dois clubes nas oitavas, mas vale lembrar que na última temporada o cenário era o mesmo e o Chelsea acabou campeão.

A não ser em confrontos muito desiguais tecnicamente, arriscar palpites no esporte é complicado, sobretudo em eliminatórias. Na Champions e na maioria dos campeonatos de futebol ao redor do mundo, apenas dois jogos definem o futuro dos times no certame, o que ocasiona muitas vezes as famosas "zebras". Poucas pessoas imaginavam, por exemplo, que o Chelsea faria frente ao Barcelona nas semifinais da temporada anterior e conquistaria o título na casa do Bayern de Munique, o adversário dos ingleses na decisão. Aliás, logo após o sorteio do mata-mata da edição passada, quase ninguém apostava nos Blues como futuros campeões. Apesar disso, já é possível ao menos apontar quem deverá ter vida mais complicada para chegar à final em Wembley.

Gostaria de falar de duas equipes em especial. No meu texto sobre o sorteio dos grupos, disse que Arsenal e Milan, fragilizados com a perda de importantes jogadores, deveriam ficar satisfeitos com a chave em que haviam caído, visto que a primeira colocação era bastante acessível. Porém, nenhum deles aproveitou, e agora ambos devem pagar caro por esse vacilo. O time inglês perdeu a essencial referência de Robin van Persie para o rival Manchester United e, muito por conta disso, sofreu derrotas em jogos nos quais deveria ter se imposto, como no revés em pleno Emirates para o Schalke 04, que acabou no topo do grupo B. Agora, o adversário do Arsenal nas oitavas será indigesto: o Bayern de Munique, finalista da última edição e líder disparado da Bundesliga.

O Milan, que dividiu a chave C com Málaga, Zenit e Anderlecht, também vem penando depois de o rico PSG ter levado Thiago Silva e Zlatan Ibrahimovic para a França. A equipe rossonera, a exemplo do Arsenal, se saiu mal em partidas nas quais tinha a obrigação de vencer e simplesmente não ganhou nenhum duelo em San Siro. Foram dois empates, com Anderlecht e Málaga, e uma derrota para o Zenit. E o que mais chama a atenção é o fato de os comandados de Massimo Allegri terem marcado somente um gol na Itália. A "punição" não poderia ter sido maior: confronto nas oitavas com o Barcelona, cujo poder é do conhecimento de todos. Rossoneros e blaugranas, vale lembrar, se enfrentaram nas quartas-de-final da última temporada, e o Barça levou a melhor.

Para quem não sabe, o sorteio das oitavas-de-final da Champions é direcionado para que os primeiros colocados dos grupos enfrentem os segundos. Esse processo tem duas restrições: equipes do mesmo país ou que estiveram na mesma chave não podem cruzar logo de cara. Sendo assim, caso Arsenal e Milan tivessem ficado com a primeira posição na fase de grupos, seus possíveis adversários seriam Porto, Málaga (para o Arsenal) e Schalke 04 (para o Milan), Real Madrid, Shakhtar Donetsk, Valencia, Celtic e Galatasaray. Há algumas pedras nesse caminho também, como Real e Shakhtar, mas as chances de sucesso para Gunners e rossoneros inegavelmente eram maiores. Além, claro, da oportunidade de definir a classificação em casa.

Enfim, como eu já falei, é comum vermos surpresas em mata-mata, até porque o futebol, felizmente, não é uma ciência exata. Arsenal e Milan têm, sim, condições de superar Bayern e Barcelona, embora esses resultados sejam no momento improváveis. Disse "no momento" porque, vale lembrar, os europeus ainda poderão se reforçar na janela de transferências de janeiro, ou seja, antes dos duelos decisivos da Liga dos Campeões, que começam somente em fevereiro. Entretanto, as expectativas de contratações por parte dos dois clubes não são das mais otimistas, e a sequência de ambos na competição pode ir por água abaixo devido ao desempenho abaixo do esperado na fase de grupos. Acordar apenas a esta altura do torneio pode ser muito tarde.

Falando dos outros confrontos, vejo a Alemanha com boas possibilidades de prosseguir com seus três representantes: Schalke 04, Bayern de Munique e Borussia Dortmund. O Dortmund, aliás, deve fazer um duelo muito interessante com o Shakhtar, já que as duas equipes apresentaram um futebol vistoso na fase de grupos. Outro embate que promete é Manchester United x Real Madrid. Serão 12 títulos em campo, sem falar no aguardado reencontro de Cristiano Ronaldo com os Red Devils, com quem foi campeão europeu em 2008. A Juve é favorita contra o Celtic, mas não é demais lembrar que os escoceses venceram em casa o Barcelona e por pouco não arrancaram alguns pontinhos no Camp Nou. Abaixo, confira todos os oito duelos das oitavas-de-final:

Schalke 04 x Galatasaray (ida em 20/02 e volta em 12/03)
Juventus x Celtic (ida em 12/02 e volta em 06/03)
PSG x Valencia (ida em 12/02 e volta em 06/03)
Málaga x Porto (ida em 19/02 e volta em 13/03)
Bayern de Munique x Arsenal (ida em 19/02 e volta em 13/03)
Borussia Dortmund x Shakhtar Donetsk (ida em 13/02 e volta em 05/03)
Barcelona x Milan (ida em 20/02 e volta em 12/03)
Manchester United x Real Madrid (ida em 13/02 e volta em 05/03)

No vídeo a seguir, confira os gols de Manchester United 4 x 3 Real Madrid, pelas quartas-de-final da Champions 2002/2003. Os três tentos do brasileiro Ronaldo deram a vaga aos merengues. Agora, os holofotes novamente estarão voltados para um Ronaldo, mas para o português Cristiano, que reencontrará os Red Devils pela primeira vez desde a sua saída, em 2009.


domingo, 16 de dezembro de 2012

Os méritos de Tite no título mundial do Corinthians e os benefícios da taça para o clube e para o treinador

Tite, protagonista de um time de vários protagonistas
O gol do centroavante peruano Paolo Guerrero aos 24 minutos do segundo tempo garantiu a vitória por 1 a 0 sobre o Chelsea e o cobiçado título mundial ao Corinthians. O merecido triunfo alvinegro pôs fim à sequência de cinco conquistas europeias, já que os times do Velho Continente levaram a melhor na competição de 2007 até o ano passado. Além disso, com o resultado, os corintianos completaram uma espécie de "trinca", levantando em um curto período de dois anos as três taças mais desejadas por seus rivais: o Campeonato Brasileiro, em 2011, e a Libertadores da América e o Mundial de Clubes, em 2012.

Apontar no elenco atual apenas dois ou três responsáveis por esse sucesso recente é uma missão quase impossível. Cássio, que conquistou a titularidade no decorrer da temporada, fechou o gol na Libertadores - sobretudo no duelo com o Vasco, pelas quartas-de-final, no Pacaembu - e na final com o Chelsea. A dupla de volantes funcionou em plena sintonia: Ralf deu mais segurança à defesa, intransponível no Japão, enquanto Paulinho foi sempre um importante elemento surpresa no ataque. O experiente Danilo, que trilhou caminho semelhante no São Paulo em 2005, apareceu nos momentos cruciais, como na semifinal contra o Santos e na decisão do Mundial. Na frente, coube a Emerson e Guerrero a função de marcar os gols decisivos nos dois títulos da equipe esse ano.

Fazer essas peças trabalharem em conjunto passa pelas mãos do treinador. E Tite foi muito competente nessa tarefa de formar um grupo onde todos participam, e não apenas um time dependente de um ou outro valor individual. O técnico conseguiu extrair o máximo dos jogadores que tinha à disposição e, o mais importante, aplicou à equipe conceitos fundamentais do futebol moderno, especialmente a marcação por pressão e a dedicação tática sem a bola - tanto que colocou o atacante Jorge Henrique para marcar o lado esquerdo do Chelsea na final. Na decisão de 2011, a ausência dessas características e a dependência de Neymar foram fundamentais na goleada por 4 a 0 do Barcelona no Santos, além, claro, da qualidade do time espanhol.

A competitividade da equipe era tão grande que até diminuiu aquela ideia do abismo técnico entre europeus e sul-americanos e que ficou mais evidente no confronto dos santistas com os catalães. Porém, as diferenças ainda existiam e só valorizam o título. Nesta semana, a Pluri Consultoria publicou um estudo que levava em consideração o valor de mercado dos dois finalistas. E os números impressionam, embora não sejam surpreendentes. A equipe do Chelsea que entrou em campo está avaliada em aproximadamente R$ 688 milhões, números mais de cinco vezes maiores que os do Corinthians, cujos titulares somam R$ 125,5 milhões. Sem falar que, juntos, o espanhol Juan Mata e o belga Eden Hazard têm valor de mercado equivalente ao de todo o grupo corintiano.

Vale lembrar que esse trabalho de Tite à frente do Corinthians por pouco não foi interrompido em seu início, quando o clube viveu um dos capítulos mais trágicos de sua história: a eliminação para o Tolima na fase preliminar da Libertadores de 2011. A diretoria da época pode até ser criticada por outras questões, mas merece elogios pela manutenção do treinador. E curioso é ver que o próprio Chelsea sempre caminhou em direção contrária com Roman Abramovich. Desde que o russo assumiu o comando dos Blues, em 2003, nove treinadores já dirigiram a equipe, e apenas três - José Mourinho, Guus Hiddink e Roberto Di Matteo - foram campeões. Diante disso, difícil acreditar que Abramovich teria a mesma paciência com Tite após a derrota  na Colômbia.

Campeão brasileiro, sul-americano e mundial, o Corinthians, que já era um gigante, subiu de patamar e hoje vê a maioria dos rivais do andar de cima. A exemplo de Tite, que merecidamente foi cogitado por várias pessoas - inclusive por mim - para comandar a seleção. Discussões como essa, aliás, são bem mais relevantes do que algumas que apareceram durante a semana. O clube alvinegro pode ser chamado de "bicampeão mundial"? Isso pouco importa. Essencial é saber que a edição de 2000 também tem seu valor, como aconteceu com a Copa Rio na década de 1950. Houve de fato a "invasão corintiana" ao Japão? Importante é que quem esteve lá protagonizou um belo espetáculo e, assim como são-paulinos e colorados, acompanhou de perto um fato inesquecível.

No vídeo abaixo, confira o histórico gol do peruano Paolo Guerrero na voz sempre contagiante do locutor esportivo José Silvério.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Histórico recente do Atlético Mineiro ajuda a entender euforia dos torcedores ao término do Brasileirão

Bernard, Ronaldinho e Pierre, destaques do Galo em 2012
27 de novembro de 2005. Penúltima rodada do Campeonato Brasileiro. À beira do rebaixamento, o Atlético Mineiro entra no gramado do Mineirão para enfrentar o Vasco da Gama com a seguinte escalação: Bruno; Cáceres, Lima e Thiago Junio; Rodrigo Dias, Alicio, Rafael Miranda, Tchô e Rubens Miranda; Pablo Gimenez e Renato. A defesa até tem sucesso na missão de parar Romário, que seria o artilheiro da competição com 22 gols, mas o ataque não marca, e o 0 a 0 decreta o primeiro descenso da história atleticana.

O Galo despertou desse pesadelo rapidamente e retornou à elite em 2006 arrastando multidões ao estádio, como já se tornou corriqueiro com grandes clubes na segunda divisão. Os anos seguintes, porém, voltaram a ser nebulosos para o Atlético, especialmente se levarmos em consideração os bons resultados obtidos pelo Cruzeiro. E é inegável que essa comparação com o maior rival faz muita diferença para o torcedor, sobretudo em estados que possuem somente dois times de maior expressão. É assim no Rio Grande do Sul, com Grêmio e Internacional, na Bahia, com Bahia e Vitória, no Pará, com Paysandu e Remo, e em Minas Gerais, com Atlético e Cruzeiro. Nesse duelo mineiro, quem quase sempre levava a pior nas temporadas recentes era a parte alvinegra.

Talvez os dois anos que melhor ilustrem esse cenário sejam os de 2008 e 2009. Os rivais de Minas fizeram a decisão do estadual em ambos e, incrivelmente, o Atlético foi goleado por 5 a 0 nas duas oportunidades, o que deixou os atleticanos arrasados. Como ir à escola ou ao trabalho depois de uma derrota como essa para o principal concorrente? Para piorar, nas duas edições do Brasileirão, o Cruzeiro ficou na frente do rival. Em 2008, o Galo foi o 12º, enquanto a Raposa terminou em terceiro. Em 2009, o Atlético até esboçou brigar pelo título, mas acabou em sétimo, três posições abaixo do Cruzeiro, o quarto. O que aliviou o sentimento de decepção foi a vitória do Estudiantes sobre os cruzeirenses na final da Libertadores. Mas se contentar com isso era pouco.

As outras duas temporadas após a volta à primeira divisão não foram diferentes. Em 2007, Galo em sétimo e Cruzeiro em quinto. Em 2010, o Atlético foi o 13º, a três pontos do chamado "Z-4", e a Raposa ficou com o vice-campeonato, a dois pontos do campeão Fluminense, classificando-se novamente para a maior competição da América. A possibilidade de se redimir com a torcida veio no Brasileirão de 2011. Não que o Atlético tenha disputado a taça até o final. Pelo contrário. Só que o clube alvinegro finalmente terminaria na frente dos cruzeirenses e chegou à última rodada com chances de rebaixar o rival para a segundona. O Galo, no entanto, foi goleado por 6 a 1 em um jogo que levantou muitas suspeitas e, inacreditavelmente, virou o ano de mal com os torcedores.

Todos esses episódios decepcionantes explicam em grande parte a euforia da torcida do Atlético Mineiro, que muito tempo depois terá um final de ano bem mais feliz que o do Cruzeiro. Foi justamente com a vitória por 3 a 2 sobre o maior rival, no domingo, que o Galo consolidou a segunda colocação e a vaga direta na fase de grupos da Libertadores de 2013, 12 anos depois da última aparição do clube do torneio sul-americano. As boas exibições em 2012 renderam prêmios a diversos jogadores. Réver, Leonardo Silva, Marcos Rocha e Ronaldinho estiveram na seleção do Campeonato Brasileiro, além de Bernard, eleito a revelação. Mas também representou um prêmio ao torcedor atleticano, cujo amor pelo time foi colocado à prova em inúmeras ocasiões.

Difícil afirmar com plena convicção que o desempenho do Atlético Mineiro neste ano garante a equipe brigando por títulos no futuro. O Palmeiras, por exemplo, chegou a fazer boas campanhas após o rebaixamento, mas, depois de duas temporadas ruins, retornou à segunda divisão. Porém, o primeiro passo foi dado. O Atlético voltou a impor respeito dentro de campo, principalmente com as contratações de Victor e Ronaldinho, dois jogadores acima dos padrões brasileiros. Atletas desse nível são fundamentais para repartir a responsabilidade com os mais jovens, que naturalmente começam a aparecer - foi assim com Bernard em 2012. Essa pressão é comum para o Galo, clube que, apesar de todas as adversidades citadas acima, continua sendo um gigante.

No vídeo abaixo, confira a vitória por 3 a 2 do Atlético Mineiro em cima do Cruzeiro. Com o resultado positivo sobre o maior rival, atleticanos consolidaram a segunda posição no Campeonato Brasileiro e a vaga direta na Libertadores de 2013.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Vítima da política da CBF, Mano Menezes também foi perseguido por incoerência e imediatismo dos brasileiros

Mano Menezes deu lugar a Felipão na seleção brasileira
A CBF anunciou há uma semana a demissão de Mano Menezes e na manhã desta quinta-feira o retorno de Luiz Felipe Scolari ao comando da seleção brasileira. A opção pela troca de treinador pegou muitos de surpresa. Não porque o trabalho de Mano à frente da equipe nacional tenha sido incontestável, mas pelo fato de ter acontecido justamente no momento em que o técnico parecia encontrar um esquema de jogo no mínimo ousado e interessante, com dois volantes - Paulinho e Ramires - de maior saída de bola e um ataque de bastante movimentação.

Neste texto, não pretendo abordar os motivos que levaram a Confederação a tomar essa decisão, até porque eles têm um claro viés político - não à toa Andrés Sánchez abandonaria o cargo de diretor de seleções, que da noite para o dia deixou de existir. Quero questionar as razões que fariam a maioria dos brasileiros também seguir por esse mesmo caminho de trocar o comando técnico a pouco mais de um ano e meio da Copa do Mundo de 2014. Afinal, não dá para negar que, se o poder estivesse nas mãos do povo, o destino de Mano seria exatamente igual. Esse cenário, que já se tornou constante entre os clubes nacionais, só evidencia o imediatismo e a incapacidade de se analisar o contexto atual do nosso futebol por parte de alguns dirigentes e torcedores.

Como eu já disse, era possível contestar algumas escolhas de Mano Menezes. Difícil entender como Ronaldinho foi convocado para amistosos no final de 2010, quando não vivia uma fase extraordinária no Milan, e não figurou nas listas mais recentes, já que vem fazendo uma temporada bem melhor pelo Atlético Mineiro. Também não acho que o futebol brasileiro vive uma "entressafra", ideia defendida por Ronaldo. Mano tinha, sim, um bom material humano em mãos. Thiago Silva, Daniel Alves e Marcelo são três dos melhores defensores atualmente, Ramires foi fundamental no título europeu do Chelsea, Oscar se adaptou como poucos ao clube inglês, e Neymar esteve pelo segundo ano consecutivo entre os 23 indicados à Bola de Ouro.

Transformar essas peças em um conjunto de engrenagens que funcione perfeitamente, no entanto, não é um processo fácil. Por conta disso, me impressiona o imediatismo que tomou conta dos brasileiros e do próprio Felipão, que na sua apresentação disse que essa seleção tem a obrigação de ser campeã jogando em casa. Por quê? É importante lembrar que o elenco nacional passou por uma reformulação grande após a eliminação de 2010 e que tem protagonistas muito jovens. E essas mudanças não eram uma entre tantas opções de Mano ao assumir a seleção. Naquela época ele foi obrigado a dar chance aos mais novos e a deixar alguns medalhões de lado. Ou alguém acha que Juan, Gilberto, Josué, Júlio Baptista, Kléberson e Grafite ainda tinham espaço?

Muitos vão dizer que uma seleção como a brasileira não pode desperdiçar mais uma oportunidade de conquistar a Copa do Mundo como anfitriã - visto que, em 1950, foi vice-campeã. Porém, uma derrota que aconteceu há mais de 60 anos não pode gerar tanta responsabilidade em jogadores que começam a despontar agora. Sem falar que perder a Copa em seu próprio país não é uma questão de vida ou morte. Em 1990, a Itália ficou com a terceira colocação em casa e quase conquistou o título quatro anos depois. Em 2006, a Alemanha também parou nas semifinais diante de sua torcida, mas na África do Sul, com ótimas atuações dos jovens Özil e Müller, fez uma grande competição. Agora, os alemães chegam ao Brasil com boas chances de conquistar o tetra.

A incoerência dos brasileiros também fez parte desse período de Mano na seleção. Quando a forte Holanda derrotou o Brasil de Dunga em 2010, os títulos da Copa América de 2007 e da Copa das Confederações de 2009 foram praticamente "invalidados" pelos torcedores, para os quais essas taças não tinham importância se o principal objetivo, no caso a Copa do Mundo, não havia sido atingido. O mesmo aconteceu com Carlos Alberto Parreira, campeão dos dois torneios anteriores ao Mundial, mas eliminado pela França em 2006. Com Mano, o desempenho na competição continental formou a opinião de várias pessoas. Como esses troféus têm importância secundária após uma eliminação no Mundial e primária para decidir se o técnico deve ou não permanecer?

Rever alguns conceitos é fundamental. Diretores e brasileiros em geral muitas vezes aparecem defendendo o trabalho a longo prazo, mas na primeira oportunidade pedem a cabeça do treinador. Empolgaram-se durante quatro anos com a equipe para lá de vencedora que Pep Guardiola formou enquanto dirigiu o Barcelona e com os métodos de treino do catalão, mas logo discordaram da ideia de um estrangeiro como técnico do Brasil, como fez o presidente da CBF, José Maria Marín. Aliás, esse é outro ponto relevante: admitir que países como Espanha e Alemanha têm talentos tão bons ou até melhores que os nossos, dentro de campo ou no banco de reservas. Pois reconhecer o talento adversário pode ser essencial para que a seleção brasileira volte a reinar no futuro.

No vídeo abaixo, confira os lances de Brasil 4 x 0 Japão, no dia 16 de outubro de 2012. A atuação foi uma das melhores (se não a melhor) da "Era Mano". A seleção brasileira foi a campo com a seguinte escalação: Diego Alves; Adriano, Thiago Silva, David Luiz e Leandro Castán; Paulinho, Ramires, Oscar, Kaká, Hulk e Neymar.

sábado, 10 de novembro de 2012

Falta de peso de camisa e pouca tradição em determinado torneio explicam sozinhas uma má campanha?

Citizens vivem situação complicada na Champions
Na última terça-feira, pela Liga dos Campeões, o Manchester City não passou de um empate em 2 a 2 com o Ajax. O resultado foi péssimo para os Citizens, que continuam na lanterna do chamado "grupo da morte" com possibilidades remotas de classificação. Em quatro jogos, o clube inglês somou apenas dois pontos, cinco a menos que o Real Madrid, o segundo colocado, e seis em relação ao líder Borussia Dortmund. Tudo isso faltando duas rodadas para o fim da fase de grupos. São grandes as chances, portanto, de o City não alcançar sequer o mata-mata pela segunda aparição consecutiva no torneio continental.

Más campanhas como essa fazem com que as pessoas busquem explicações para um desempenho tão fraco. O motivo que justifica a queda de rendimento do City na Champions parece unanimidade e já é do conhecimento da maioria: "falta de tradição em competições europeias". Afinal, essa é apenas a terceira participação do clube na história do principal torneio da Europa, que começou a ser disputado em 1955. A primeira foi na temporada 1968/1969, quando o time azul de Manchester vinha de um título inglês. Mais de 40 anos se passaram para os Citizens retornarem à elite europeia - a volta aconteceu na temporada 2011/2012 após a 3ª colocação na Premier League. Esse fator é relevante e, sem dúvida, deve ser levado em consideração.

Mas será que ele por si só explica os fracos números do Manchester City na Liga dos Campeões? Na minha opinião, não. É importante considerar que, tanto nesta quanto na última temporada, o time de Roberto Mancini caiu em grupos fortes. Em 2011, ficou atrás do finalista Bayern de Munique e do Napoli, que perdeu no mata-mata para o campeão Chelsea. Em 2012, divide a chave com outros três campeões nacionais. Já na partida de terça, por exemplo, não só a tradição do tetracampeão europeu Ajax teve influência no bom resultado conquistado pelos holandeses. Erros de arbitragem - gol legal de Aguero anulado e pênalti não marcado em Balotelli - e duelos táticos também fizeram parte do jogo, como destaca o jornalista André Rocha em seu blog.

Além disso, se apenas a tradição e o peso da camisa são determinantes em um jogo de futebol, o que justifica a excelente campanha do Málaga nessa mesma Champions? Em sua primeira aparição na história da competição europeia, a equipe espanhola tem o segundo melhor desempenho entre os 32 times, muitos deles "gigantes", que disputam a fase de grupos. O Málaga é o líder do grupo C com 10 pontos ganhos, deixando na segunda colocação o Milan, clube que levantou o troféu do torneio nada menos que sete vezes. Aliás, nos duelos entre os dois times, essa diferença de títulos pouca diferença fez. Os espanhóis venceram em casa e por pouco não levaram os três pontos na Itália: empate em 1 a 1, resultado que já lhes garantiu vaga no mata-mata.

Sem falar que eliminações precoces na Liga dos Campeões não são exclusividade de clubes com poucos resultados expressivos no torneio. O exemplo mais recente é o do Manchester United, principal rival do City e tricampeão europeu. Na última temporada, o time de Alex Ferguson vinha de um vice-campeonato, mas o histórico positivo dos Red Devils na competição não foi suficiente para evitar a queda ainda na fase de grupos. Em sua chave, o United ficou atrás do Benfica e do Basel, que nunca chegou perto de levantar o caneco. A equipe vermelha de Manchester, inclusive, já havia dado adeus mais cedo à competição na temporada 2005/2006. O mesmo aconteceu com Juventus - bicampeã - e Liverpool - pentacampeão - na temporada 2009/2010.

Enfim, não quero dizer que a tradição é irrelevante e tem pouca influência em um resultado. Enfrentar um time campeão e acostumado às vitórias é na maioria das vezes bem mais complicado. No entanto, acho muito precipitado atribuir o desempenho de uma equipe exclusivamente à história, até porque, em algumas ocasiões, o "currículo" dos atletas que compõem o elenco não coincide com o do clube que defendem. O futebol é um esporte muito complexo para se resumir a explicações exatas. Um passe errado, uma finalização certeira, uma substituição, uma falha do juiz e uma defesa milagrosa. São diversos os fatores que determinam um placar, um rebaixamento ou um título. Buscar uma única justificativa, assim, pode nos induzir ao erro.

No vídeo abaixo, confira os gols do empate em 2 a 2 entre Manchester City e Ajax. Má campanha dos ingleses vai além da "falta de tradição" na Champions. Erros de arbitragem, duelos táticos e atuações individuais também têm influência.